Mino Carta - dirigiu as equipes criadoras do Jornal da Tarde e das revistas Quatro Rodas, Veja, Istoé e CartaCapital, da qual é diretor de redação.


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19/03/2008 12:54

O último post

Meu blog no iG acaba com este post. Solidarizo-me com Paulo Henrique Amorim por razões que transcendem a nossa amizade de 41 anos. O abrupto rompimento do contrato que ligava o jornalista ao portal ecoa situações inaceitáveis que tanto Paulo Henrique quanto eu conhecemos de sobejo, de sorte a lhes entender os motivos em um piscar de olhos. Não me permitirei conjecturas em relação ao poder mais alto que se alevanta e exige o afastamento. O leque das possibilidades não é, porém, muito amplo. Basta averiguar quais foram os alvos das críticas negativas de Paulo Henrique neste tempo de Conversa Afiada.
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18/03/2008 13:27

Diatribe paulistana

Meu caro Antonio Carlos Viard, São Paulo é o recanto mais reacionário do Brasil, concordo plenamente. Sou um genovês paulistano porque de certa forma me acostumei. Mas a cidade mudou demais, aquela que conheci em agosto de 1946 era muito diferente, embora a semeadura da arrogância, a retórica da “locomotiva do Brasil” e da “metrópole que mais cresce no mundo” começassem a deslanchar. Eu era muito menino, não percebi. Um livro muito interessante, “Orfeu Extático na Metrópole”, de Nicolau Sevcenko, conta essa história e localiza o momento em que a terra das grandes greves organizadas pelos anarquistas e pelos socialistas sucumbiu diante da prepotência dos senhores de café e da indústria nascente. Início dos anos 20. Além do mais, São Paulo é feia, cada vez mais feia, e monstruosamente desigual. O atual prefeito Kassab esmera-se para tirar os postes da Oscar Freire, a rua das grifes, ou de refazer as calçadas da Avenida Paulista, enquanto a periferia, e até áreas menos plebéias, não têm esgoto e galerias de águas pluviais. Sem contar a presença avassaladora de um esgoto ao ar livre representado pelos rios Pinheiros e Tietê. De caso pensado, os donos do poder paulistano cuidaram de racionar os espaços públicos até a penúria absoluta. Houve tempo em que os habitantes iam ao aeroporto de Congonhas e, deleitados, entregavam-se à sublime diversão proporcionada por aviões que pousam e levantam vôo. Hoje vão aos shoppings, movidos pela sanha consumista, ignaros e manipulados, a desconhecerem a importância da praça onde o povo discute e enfrenta os problemas coletivos. E os senhores, cheios de empáfia provinciana na exposição de falsos refinamentos? Freqüentam a Daslu e a Expand, reúnem-se em happy hours clangorosos e pelos restaurantes de uma ridícula “capital gastronômica do mundo” onde é muito difícil comer bem, e pronunciam frases feitas, lugares comuns e banalidades, aprendidos na leitura do Estadão, da Folha, da Veja e de Caras.
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18/03/2008 12:42

Um cacho de respostas tardias, mas sinceras

Meu caro Jair, não me lembro de ter visto em ação Edinho Jacaré, confio porém na sua palavra. Anoto com prazer que você tem talento para escrita. Parabéns.

Meu caro Doney, obrigado pela informação a respeito do Junior. Ainda assim insisto: como lateral esquerdo foi muito inferior ao meio-campista em que acabou por se tornar, primeiro na Itália, onde chegou a ser apontado como o melhor estrangeiro, depois no Brasil, no fim de uma bela carreira. No mais, apoio seus sentimentos flamenguistas. Eu não entendo os milaneses, e os italianos em geral, que torcem hoje pela Internazionale.

Meu caro Frederico Gorski, a mídia que hoje apóia Gabeira é a mesma que já viu nele um terrorista digno de Al Qaeda. Ou mesmo aquela que já chamou o golpe de 64 de revolução e hoje fala em ditadura militar e “anos de chumbo”. Enfim, a nossa mídia dita grande (eu a enxergo mínima), a exibir diariamente hipocrisia e mediocridade. Quanto ao Gabeira, é igual a inúmeros esquerdistas nativos que aparentavam ser uma coisa e são outra. A mídia enfim descobriu a verdade, e esfrega as mãos de puro contentamento. Aprecio quem começa à direita e ao longo da vida avança no sentido oposto. Em compensação, tenho medo, pânico, em relação a quem começa a se dizer de esquerda e termina à direita.

Meu caro Alexandre, tive uma ponta no filme “Bebel, Garota Propaganda”, com Paulo José e Rosana Ghessa, dirigido por Maurice Capovilla e baseado no romance de Ignácio de Loyola Brandão. Tinha eu 33 anos e fiz o papel de um diretor de revista no gênero Caras e similares sobretudo interessado em seduzir as moçoilas que passavam por perto.

Meu caro Daniel, nada podia encantar-me mais do que saber do renascimento do bolero, dois para lá, dois para cá. É o fundo musical de um belo pedaço das minhas memórias e aqui declaro que tivesse eu de escolher um único bolero, ficaria com “La Mentira”. Não sei se você concorda. Aliás, outro que me encanta é “Serenada”, na voz de Nat King Cole.
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17/03/2008 18:12

Ainda sobre a Itália nas Copas

Meu caro Roberto Soares Leite, o pênalti não marcado no Sarriá não foi em Antognoni, e sim em cima do Paolo Rossi, cometido por Oscar, nos primeiros dez minutos do segundo tempo, quando o jogo estava no 2 a 1. Anulado foi um gol do Antognoni, já nos últimos 10 minutos, legítimo. Mas o juiz viu um impedimento. Em 1994, sempre disse, e repito, os canarinhos mereceram ganhar, não tanto pelo que fizeram na final, porém ao longo de todo o torneio. Aliás, você se esquece do primeiro jogo da Itália, contra a Irlanda, um vexame. Quanto à Espanha, acho que a azzurra foi bem, o problema foi a cotovelada que o lateral direito Tassoti, um reserva, deu no ponta-esquerda espanhol, no fim do jogo, e o juiz húngaro ignorou. Contra a Bulgária, os italianos atuaram decididamente bem, e Baggio fez dois gols extraordinários. Machucou-se nos últimos minutos e ficou a dúvida quanto à sua presença na final. E agora, perdoe a troca entre Miguez e Julio Perez. De todo modo, ainda bem que existe o futebol, não é mesmo? É diversão para valer, com alguns momentos sombrios. Válidos, contudo, tenho certeza.
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17/03/2008 17:57

Sobre o campeonato italiano

Meu caro Sergio Alexandre Ant, a RAI cobre o campeonato italiano ao vivo, no sábado (às 14 e às 16,30) e no domingo (às 11 e às 16,30). Os horários são os nossos, na base de quatro de horas de diferença no fuso. Logo mais, vão cair para três horas, no momento que começar na Itália o chamado orario legale. E concordo com você quanto a mais um sinal de nossa decadência. Tenho saudades de locutores como Pedro Luis, Fiori Gigliotti, Osmar Santos, Silvio Luis, vibrantes e únicos. E, creia-me, havia também bons comentaristas. O melhor, a meu ver, foi Mario Morais, que gostava de analisar os times jogador a jogador, e os apreciava do ponto de vista técnico e tático. Atuava em parceria com Pedro Luis.
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17/03/2008 17:47

Temo o Serra e bem menos o Aécio

Meu caro Igor Vinicius, temo o Serra e bem menos o Aécio. Entre os três que você candidata, escolho a Dilma. Acho com nome. Quando ainda não se falava nela, aqui, neste blog, eu já apontava como a mais provável escolha de Lula.
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17/03/2008 17:45

Não se trata de antipatia gratuita com a igreja

Meu caro Marinaldo Batista, a igreja católica foi um dos fatores, talvez o maior, da desunião da Itália. E este é o pecado mortal. Enquanto se formavam os Estados nacionais europeus, a península ali ficada, dividida em estadinhos e cidades-estado. Além disso, graças ao seu poder temporal, a igreja dominou a Itália central e ali manteve, sempre que possível, a ignorância que lhe convém. Se algumas ordens religiosas tiveram um papel destacado e positivo, como, por exemplo, os beneditinos e os franciscanos, esta contribuição civilizatória não se deveu ao poder central romano, mas à ação independente dos monges, que era cultos e letrados. São Francisco, grande santo e homem notabilíssimo, ou Santa Catarina da Siena, foram religiosos que contestaram esse poder central, corrupto e corruptor. Hipócrita e sedento de poder e prazeres terrenos. A Roma papa, a cidade do Papa-rei, foi corte esfuziante e devassa. Há, está claro, méritos na construção de um patrimônio artístico sem similares, não somente em Roma, mas também em toda a península. Sessenta por cento das obras de arte do mundo estão na Itália, em boa parte graças à ação de papas que se portaram como príncipes-mecenas, e a cardeais, bispos, cônegos, que lhe seguiam o exemplo. Sinceramente, o balanço da presença do centro da igreja na Itália não esbanja pontos favoráveis, e é por causa disso que o povo italiano é o mais blasfemo do mundo e conta com um exército de anti-clericais. Meu caro Marinaldo, não se trata de antipatia gratuita.
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14/03/2008 19:40

Vênetos gaúchos, futebol e a unificação da Itália

Respostas a vários companheiros de navegação. Na ordem. Meu caro Clovis Dorigon, que belo sobrenome vêneto... Não li o livro, aliás, é uma revelação. Há meios de conseguir um exemplar? Gostaria muito de saber da história de um Brasil sem casa-grande e sem senzala. Meu caro Lineu, porque haveria de lhe querer mal? Você tem razão, no meu entendimento: o futebol é um assunto chato, sobretudo se evidencia recalques indevidos, aleivosias injustificadas, raivas disfarçadas a aflorar de súbito. Veja só, há torcedores que definem como tragédia a derrota do Brasil no mundial de 1950, na final contra o Uruguai, ou em 1982, nas quartas contra a Itália. Os deuses gregos gargalham deste súbito distanciamento da realidade, desta incapacidade de classificar os fatos para hierarquizá-los conforme a importância e a gravidade.

Meu caro Robbiate, a unificação da Itália foi inevitável, imposta pela realidade do mundo. Mas Garibaldi (a ação) e Mazzini (a idéia) foram tragados pelo desenho de Camillo Benso di Cavour, o primeiro-ministro do rei piemontês Vittorio Emanuel II, ideólogo da unificação “de cima para baixo” e da ascensão da Península a Estado europeu. Cavour foi personagem de grande relevo, um estadista conservador.

Meu caro Célio Jorge Lasmar, a Igreja Católica foi um dos principais entraves à unificação italiana e até hoje, concordo com você, interfere quase sempre negativamente na vida do país.

A todos, muito obrigado. Foi ótima conversa, cresci com ela.
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14/03/2008 19:20

Lula senador e oposicionista

Converso com uma fonte privilegiada, bom conhecedor do presidente Lula. Diz ele que o sonho de Lula é emplacar na Presidência seu candidato, ao que tudo indica Dilma Rousseff, e voltar para São Bernardo para comer galeto e bater caixa com os amigos. Se sentir fraqueza, contra José Serra vai apoiar Aécio Neves. E se tiver dúvidas quanto às chances de vitória de Aécio, desincompatibiliza-se do mandato presidencial e candidata-se ao Senado, para não deixar o homem deitar e rolar. Enfim, Lula ficaria na ribalta para não deixar barato, em uma oposição ferrenha. Diz a fonte: “Se Serra leva, você verá o que é um governo autoritário”. Comentário dele, não do Lula.
enviada por mino



14/03/2008 19:13

A história não se escreve com os ses

Eu sei que falar de futebol no Brasil não convém, e até entendo as razões de tamanho apego aos feitos da bola. Nasce, infelizmente, de um complexo de inferioridade. Preferiria que a gente pensasse nos Prêmios Nobel que alguns patrícios mereceram e não receberam. Já escrevi a respeito, falei de Machado de Assis, que morreu quando o prêmio já fora criado, Emilio Ribas, Carlos Chagas, Guimarães Rosa. Sabemos, porém, como são esses galardões, e que o Brasil fica longe da Escandinávia. Também sabemos como são as taças mundiais. No entanto, o Brasil, graças a João Havelange, já mandou na Fifa, por um período interminável, e o famigerado Joseph Blatter foi seu discípulo aplicado. É sabido, aliás, que Blatter não gosta de italianos. E eu particularmente sei que inúmeros nativos também não gostam, por causa das derrotas sofridas pelo Brasil diante da azzurra, em 1938, no Mundial da França, e em 1982, na celebérrima e nunca assaz falada contenda do Sarriá. Ah, a tragédia. Os deuses gregos gargalharam. Inúmeras vezes tenho sentido a raiva do interlocutor quando o assunto é futebol, a raiva do brasileiro nato contra o italiano que escolheu o Brasil. Com méritos maiores, diga-se. Quem nasce aqui não faz esforço algum em ser do País. Então, por exemplo, se digo sobre Luca Toni, atualmente artilheiro do Campeonato Alemão, que aqui a gente não assiste, imediatamente aparece quem fala em Fernando Torres e outros que tais, que surgem no vídeo verde-amarelo. Quem aponta Toni como o melhor não sou eu, é a crítica européia mais ou menos em peso. Contudo, na terra brasilis é inadmissível que um italiano seja o melhor na posição. Alguém cita, digamos, Ibrahimovic. Mostra ignorância. Ibrahimovic não é centroavante. Tudo bem, limito-me a informar a quem se irrita facilmente que, nos confrontos diretos, Itália e Brasil estão perfeita e inexoravelmente empatados. No mais, sublinho que eu estava no Maracanã no dia da tragédia (os deuses gregos gargalham) de 1950, repórter aos 16 anos. Acho impossível apontar o time mais forte na ocasião, mas os uruguaios não somente foram superiores, mas também, no meu entendimento, apresentaram um conjunto mais equilibrado, do goleiro Maspoli ao centroavante Julio Peres. E vinham de Matias Gonzáles, Rodrigues Andrade, Obdulio Varela, Ghiggia e Schiaffino, um dos mais extraordinários meias que vi atuar em minha vida. Ah, sim, o pênalti que o juiz deu à azzurra na partida contra a Austrália, em 2006. Muitos evocam, solícitos e pretensamente implacáveis, como se bastasse isso para enodoar a vitória final. E quem determina que no tempo suplementar a Itália não ganharia? Ou nos pênaltis? Donde reforço a dedução de que o Sarriá é imperdoável. Ocorre que há quem pretenda escrever a história com os ses. Se a azzurra de 82 enfrentasse os canarinhos de Telê Santana dez vezes, perderia nove. Os deuses gregos gargalham de tamanha certeza. Sugiro, de todo modo aos irritados, que assistam ao vídeo, ou CD, de Brasil – URSS do mesmo 1982. Observem, quem sabe perplexos: o juiz não deu um pênalti clamoroso a favor dos russos. Outro foi negado aos espanhóis em 1962, no confronto com o Brasil. Pois é, os árbitros erram.
enviada por mino






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