Mino Carta - dirigiu as equipes criadoras do Jornal da Tarde e das revistas Quatro Rodas, Veja, Istoé e CartaCapital, da qual é diretor de redação.


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10/03/2008 19:21

Tudo para a felicidade de Rapunzel

Quem surgirá a um dos janelões franceses do Condomínio Parque Cidade Jardim, em construção às margens do Rio Pinheiros? Talvez Rapunzel, a soltar suas tranças em proveito da escalada do amado? Até ontem, fechasse os olhos para colocar o pensamento na bissetriz do “exclusivíssimo condomínio”, como esclarece a Folha de S.Paulo, padecia de largo sobressalto interior. Tectônico, a bem da sacrossanta verdade. Ocorre que só mesmo Rapunzel para ser enquadrada por janelões franceses, é o que cria a minha imaginação, ensombrecida, porém, pelas condições ambientais do local. O cheiro fortíssimo (o superlativo também cabe aqui) do rio tornado há tempo esgoto ao livre implode, literalmente, qualquer chance de encontros românticos. Chorei, choreiiii, choreiiiiiii, cantaria Cauby. Quem sabe, vocês quisessem me acompanhar. Hoje, no entanto, recobrei a tranqüilidade. A paz. O êxtase dos santos. A saborosa reportagem do Folhão afaga meus precórdios. E leio: a corretora incumbida de cuidar da comercialização do condomínio informa que a frente das torres (ah, as torres do castelo) será atravessada por um “jardim aromatizado” destinado “a neutralizar o odor”. Um apartamento no Parque Cidade jardim custa 3 milhões de reais. Uma pechincha para quem dispõe de janelões franceses dotados de “vista panorâmica” e “tratamento acústico” para que o ruído do trânsito da marginal não alcance seus ouvidos. Ou seja, cria-me um oásis naquelas alturas medievais, um retorno aos contos de fadas. Pergunto aos meus elegantes botões se a corretora não teria condições de produzir um esforço ulterior, de sorte a substituir a visão de Gotham City, estabelecida em torno da Avenida Berrini, do lado oposto do rio, com aquela do Sacre Coeur de Paris, ou de Florença na primavera, ou do mar de Angra dos Reis. Ou então, a trocar a vista da ponte estaiada do conjunto Jornalista Roberto Marinho pela London Bridge em dia de sol. Ou da favela que cresce inexoravelmente à volta do condomínio pela do Central Park no outono. Os botões garantem que, se houver determinação para tanto, tudo é possível em proveito da felicidade da elite branca.
enviada por mino






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