14/03/2008 19:13
A história não se escreve com os ses
Eu sei que falar de futebol no Brasil não convém, e até entendo as razões de tamanho apego aos feitos da bola. Nasce, infelizmente, de um complexo de inferioridade. Preferiria que a gente pensasse nos Prêmios Nobel que alguns patrícios mereceram e não receberam. Já escrevi a respeito, falei de Machado de Assis, que morreu quando o prêmio já fora criado, Emilio Ribas, Carlos Chagas, Guimarães Rosa. Sabemos, porém, como são esses galardões, e que o Brasil fica longe da Escandinávia. Também sabemos como são as taças mundiais. No entanto, o Brasil, graças a João Havelange, já mandou na Fifa, por um período interminável, e o famigerado Joseph Blatter foi seu discípulo aplicado. É sabido, aliás, que Blatter não gosta de italianos. E eu particularmente sei que inúmeros nativos também não gostam, por causa das derrotas sofridas pelo Brasil diante da azzurra, em 1938, no Mundial da França, e em 1982, na celebérrima e nunca assaz falada contenda do Sarriá. Ah, a tragédia. Os deuses gregos gargalharam. Inúmeras vezes tenho sentido a raiva do interlocutor quando o assunto é futebol, a raiva do brasileiro nato contra o italiano que escolheu o Brasil. Com méritos maiores, diga-se. Quem nasce aqui não faz esforço algum em ser do País. Então, por exemplo, se digo sobre Luca Toni, atualmente artilheiro do Campeonato Alemão, que aqui a gente não assiste, imediatamente aparece quem fala em Fernando Torres e outros que tais, que surgem no vídeo verde-amarelo. Quem aponta Toni como o melhor não sou eu, é a crítica européia mais ou menos em peso. Contudo, na terra brasilis é inadmissível que um italiano seja o melhor na posição. Alguém cita, digamos, Ibrahimovic. Mostra ignorância. Ibrahimovic não é centroavante. Tudo bem, limito-me a informar a quem se irrita facilmente que, nos confrontos diretos, Itália e Brasil estão perfeita e inexoravelmente empatados. No mais, sublinho que eu estava no Maracanã no dia da tragédia (os deuses gregos gargalham) de 1950, repórter aos 16 anos. Acho impossível apontar o time mais forte na ocasião, mas os uruguaios não somente foram superiores, mas também, no meu entendimento, apresentaram um conjunto mais equilibrado, do goleiro Maspoli ao centroavante Julio Peres. E vinham de Matias Gonzáles, Rodrigues Andrade, Obdulio Varela, Ghiggia e Schiaffino, um dos mais extraordinários meias que vi atuar em minha vida. Ah, sim, o pênalti que o juiz deu à azzurra na partida contra a Austrália, em 2006. Muitos evocam, solícitos e pretensamente implacáveis, como se bastasse isso para enodoar a vitória final. E quem determina que no tempo suplementar a Itália não ganharia? Ou nos pênaltis? Donde reforço a dedução de que o Sarriá é imperdoável. Ocorre que há quem pretenda escrever a história com os ses. Se a azzurra de 82 enfrentasse os canarinhos de Telê Santana dez vezes, perderia nove. Os deuses gregos gargalham de tamanha certeza. Sugiro, de todo modo aos irritados, que assistam ao vídeo, ou CD, de Brasil URSS do mesmo 1982. Observem, quem sabe perplexos: o juiz não deu um pênalti clamoroso a favor dos russos. Outro foi negado aos espanhóis em 1962, no confronto com o Brasil. Pois é, os árbitros erram.
enviada por mino
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