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01/02/2008 19:10

Vivemos em um mundo cretinizado e medieval

Muito interessantes e pontuais as intervenções a respeito do meu post sobre o livro de Guido Rossi, Mercado de Azar. Verifica-se, com absoluta clareza, que o capitalismo está a privilegiar, impunemente, a produção de dinheiro, em lugar de bens e serviços. O resultado pinta aí, inexorável. Rossi defende a idéia de que somente uma lei internacional a ser cumprida com rigor total salvaria o capitalismo. Trata-se, temo, de um idealista. Um navegante fala em cretinização do mundo, outro de um começo de Idade Média, nova mas igualmente entrevada. Eu estou convencido disso há muito tempo. A minha metáfora é a seguinte. Certo dia em Roma visitei o Museu Massimo, que contém obras da arte romana, pinturas, mosaicos, estátuas, até carrancas de bronze. Os pintores romanos do primeiro século do primeiro milênio pintavam com maestria deslumbrante e conheciam à perfeição a perspectiva. No segundo século as coisas ficam mais confusas, no terceiro mais ainda, no quarto começa a degringolada. Pois é, perderam a perspectiva. E esta, digamos, obnubilação, coincide com o princípio da Idade Média, aquela mais turva e funda. Para recuperar a perspectiva é preciso que passem mil anos, e nem mesmo Giotto e os pintores de Siena do século XIV chegam lá, embora mestres de incomparável força e beleza. Quem chega são os primeiros intérpretes da natureza em 1400, Masaccio, Paollo Uccello e alguns mais. Quando percorro a história da pintura desde então até hoje, percebo o exato instante em que a nova Idade Média começou. A pintura desdobra-se em beleza séculos a fio, de Piero della Francesca a Cézanne, até que, no alvorecer do século passado, a situação volta a degringolar. Quando penso em Mondrian, em Pollock, em Rothko, entendo que retornamos ao quarto século, ou ao quinto. Não adiantaram Matisse, Picasso, Modigliani, Chagall, e muitos outros, empenhados a interpretar a natureza. Chegou a horda, não houve jeito, e lá se foi a perspectiva. Nem falo dos atuais, celebrados artistas brasileiros. Não falo das instalações e que tais. Nem falo de bois mortos e mergulhados em formal dentro de uma caixa de vidro. Por uma serigrafia de Andy Warhol, especialista em prismar fotos de figuras públicas e aplicar sobre elas cores sólidas e extravagantes, pagam-se dezenas de milhares de dólares. Já perguntei: e então, quanto vale a Capela Sistina? Mas são energias desperdiçadas. No mundo cretinizado e medieval, vender gato por lebre ficou muito fácil.
enviada por mino






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