29/02/2008 19:51
Sobre Montanelli
Respondo a Otavio. Com atraso involuntário: até hoje, seu apelo não chegara até a minha Olivetti. Indro Montanelli foi, antes de mais nada, um extraordinário jornalista. Diria um americano: praticante notável do novo jornalismo. Coisa de americano. Quando é jornalismo autêntico, de 18 quilates, é o velho sempre novo. É o jornalismo que veste a informação correta, a verdade factual, com a qualidade literária. No caso de Montanelli, altíssima qualidade. No jornalismo italiano, que reputo um dos melhores com absoluta isenção, não é incomum. De resto, a tradição é impressionante, começa com a Renascença que se fez na península ainda em 1300 e no resto da Europa quase dois séculos depois. Os primeiros jornais venezianos chamavam-se Gazette, ou seja, pequena Gazza, o pássaro atraído por superfícies faiscantes. Os próprios fatos, pepitas no pedregulho. Montanelli destacou-se a partir do imediato pós-guerra, inclusive no Brasil, um Brasil mais interessado e atento às coisas do mundo do que o de hoje. O Instituto Progresso Editorial publicou um livro de Montanelli, Aqui Não Se Descansa, em 1947, e meu pai, que era diretor artístico da editora, cuidou da roupagem gráfica e desenhou a capa. De fato, Montanelli teve uma atuação também como escritor, bastante singular e sempre elegante, e produziu inclusive livros de história redigidos por um repórter disposto a freqüentar os tempos indos, mesmo os mais remotos, com pena moderna. Só tive um contato com Montanelli, fugidio, em Veneza, em 1959, durante o Festival de Cinema, que eu cobria como repórter aos 25 anos. Ele estava ali, no lobby do Grande Hotel do Lido, com um foulard de seda a lhe envolver o pescoço. Era autor do roteiro do filme Il Generale Della Rovere, dirigido por Rossellini e interpretado por Vittorio de Sica. Foi Leão de Ouro empatado com A Grande Guerra, de Monicelli. O script baseava-se em um conto de Montanelli que relatava uma história verdadeira. Trocamos duas palavras velozes, mas suficientes. Chegou Anthony Quinn e os dois foram para a praia. Era um cavalheiro refinado e charmoso. Infelizmente, lá pelas tantas em tempos bem mais recentes, trabalhou em um jornal de Silvio Berlusconi. Felizmente, desentenderam-se, e ele se mandou, para a minha alegria e de muitos outros. Morreu aos 92 anos, ao atender ao seu próprio lema: Morra sem dor a partir do momento em que você tiver de ir ao banheiro acompanhado.
enviada por mino
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