11/02/2008 17:22
Nenhuma bala é perdida
Leio que o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, com a vertiginosa rapidez de Romário no espaço curto, disse em entrevista ao Estadão que a eventual CPI sobre cartões corporativos não deve investigar os gastos tanto da família Lula, quanto da família FHC. Não vamos jogar tapioca no ventilador, recomendou. Pergunto aos meus estupefactos botões em qual país do mundo democrático e contemporâneo um ministro do Planejamento se disporia a tomar postura similar. Verifico que os botões, colhidos por tamanha surpresa, não conseguem articular uma única, escassa palavra. Ainda bem que Jean-Paul Lagarride sexta passada me levou a refletir sobre o assunto cartões, da típica lavra nativa. E agora pergunto aos meus companheiros de navegação: por quê os jornalões estão a baixar a bola da costumeira, indignadíssima campanha contra Lula e seu governo? Reparem: o tema cartões hoje fica em segundo plano. Não comparece na primeira página da Folha e do Globo, e faz uma tímida aparição na primeira do Estadão. Claro que este comportamento comedido, diria até cauteloso, não se deve ao ministro da Justiça, Tarso Genro, que falou em crise artificial. A crise do desmando sem punição é crônica. Já o ministro Paulo Bernardo parece ter percebido a exata localização do rombo. E se a pretensa tempestade amaina, vá o nosso agradecimento a Paulo Henrique Amorim, capaz de convocar para a triste arena das despesas exorbitantes com os tais cartões, nada mais, nada menos que o governo super-tucano de José Serra. E aí vem à tona a essência da questão: o telhado de vidro cobre a política brasileira de fio a pavio, pouco importam os partidos como agremiações baseadas em inexistentes plataformas ideológicas e em promessas de transparência e probidade. Partidos? Clubes recreativos. E não é de hoje, bem sabemos. É de sempre. E a mídia, sempre alinhada na hora de invocar um golpe de Estado ou, hoje em dia, em atacar Lula, ela própria um dos rostos mais explícitos do poder tradicional, não foi capaz de medir as conseqüências da campanha vigorosa e afoitamente iniciada há uma semana e agora em declínio. Pois é, a mídia tucano-udenista. Nada disso encobre, aos olhos dos cidadãos conscientes, a total permissividade, a leniência criminosa, a amoralidade da política brasileira. Donde, nenhuma bala é perdida.
enviada por mino
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