08/02/2008 19:22
Lagarride e o golpe dos cartões corporativos
Telefona Jean-Paul Lagarride. De Moscou, está na Rússia para preparar uma de suas fluviais reportagens, esta sobre o novo czar, Putin I. Avisa: Desta vez Lula cai. Pergunto por quê. Segue-se o seguinte diálogo.
Ele: Olha, leio as manchetes dos jornais e percebo que a coisa está muito feia, é da percepção até do mundo mineral.
Eu: Desculpe, mas esta frase do mundo mineral é minha.
Ele: Está bem, mas também pensata era palavra sua e hoje é comum pelas redações, até trivial.
Eu: Pensata não é da minha lavra, o autor é Peppino de Filippo, mas este é outro assunto. Falemos da derrubada de Lula.
Ele: Pois é, os cartões corporativos é que vão derrubá-lo. A mídia só fala disso, enche páginas e programas, e a cada dia vem à tona outro fato escabroso, é de arrepiar. Aliás, leio Fernando de Barros Silva na Folha de S.Paulo, diz já na primeira página que o mandato do presidente está a risco se as revelações continuarem a manter o ritmo.
Eu: O enredo é acabrunhador, embora às vezes me faça rir, quando a revelação diz respeito ao consumo de uma Coca-Cola. Mas há despesas que envergonham quem as fez e provam o descalabro.
Ele: Estou surpreso.
Eu: Eu nem um pouco. Tudo dentro das tradições da política nativa, pela qual o poder é concebido como valiosíssima fonte de renda, e renda gorda, a maior possível. As burras do Estado sempre foram expostas aos irresistíveis impulsos daqueles que ficam por perto.
Ele: Sim, mas agora...
Eu: (interrompo) Agora a mídia se esbalda porque, desde 2003, empenha-se praticamente em uníssono para dificultar a vida de um governo que se pretende de esquerda.
Ele: E não é?
Eu: Pelo amor de Deus, se o governo for de esquerda, Zapatero é da extrema, um louco revolucionário. Não, meu caro, o governo não é de esquerda, e faz questão de não ser, a despeito de manifestar tênues preocupações sociais sem deixar de oferecer imediatas, e infinitamente maiores, compensações à elite privilegiada. De esquerda, nem sombra.
Ele: E então a mídia...
Eu: (interrompo) A mídia não se deixa seduzir por estas compensações porque a minoria privilegiada não gosta do metalúrgico sentado no trono. Não exclua a possibilidade de que muitos, nesta área dos abastados, apostem no esquerdismo de Lula. Ou seja, acreditam que o homem é inconfiável e que, de uma hora para outra, será capaz de mostrar os caninos vermelhos. Há algo mais forte na fórmula, contudo. Ódio de classe, invencível.
Ele: Permita-me insistir: desta feita o clima ficou insalubre.
Eu: É a mesmice, implacável. É a repetição de um cenário eterno. Posso estar enganado, claro, mas apostaria que todo esse fuzuê, obsessivo e frenético, vai dar em nada.
Ele: Gostaria de entender qual é o seu cacife para fazer a aposta.
Eu: O cacife é, justamente, a tradição do desmando e da impunidade. O cartão, perdoe a expressão banal, é a ponta do iceberg, e o telhado de vidro estica-se sobre tudo e todos. Repare que já estão aparecendo, mesmo timidamente, os gastos dos cartões tucanos. A mídia avança sem anotar, por ora, a ameaça das areias movediças. Se começarem a enveredar profundamente nesta zona, vai dar chabu geral e irrestrito.
Ele: Você está otimista.
Eu: Não, otimista não, desalentado, entre o fastio e o desencanto. Aliás, pergunto aos meus deprimidos botões por que a mídia não toca em outros temas, que também dão samba, como dizia o saudoso Chico Anysio. Por exemplo: por que o BNDES se dispõe a emprestar uma tonelada de grana a empresários nativos, dispostos a comprar a Brasil Telecom?
enviada por mino
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