Mino Carta - dirigiu as equipes criadoras do Jornal da Tarde e das revistas Quatro Rodas, Veja, Istoé e CartaCapital, da qual é diretor de redação.


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11/02/2008 18:56

Desobediência civil

Desta vez quem liga é, imaginem só, Henry David Thoreau. Há quanto tempo não falava com ele? Desde a minha juventude. Ele vive em um bosque de Massachusetts, em contato com natureza. Consta que periodicamente recebe a visita de um urso. Disse-me estar chocado pela história dos cartões corporativos. As palavras exatas: “Estou chocado nos precórdios”. Entendo, respondi, mas não cabe surpresa, despesas exorbitantes para a felicidade pessoal de inúmeros políticos postos nas cercanias das burras do Estado fazem parte da tradição da política brasileira. “Como assim?”, pergunta. Explico: agora é pela via dos cartões, em outras ocasiões outros meios foram usados. O resultado sempre foi o mesmo, gastam é o nosso dinheiro dos contribuintes. “E os contribuintes?” Na grande maioria, atendem ao chamado do fisco. Pagam a partir de uma renda mensal de 1.372,81 reais, sem contar os impostos indiretos, que não poupam ninguém. “Ocorre-me uma idéia”, propõe. Observo que sou alguém sem maiores poderes. Diz, peremptório e com alguma solenidade: “O senhor é cidadão e jornalista, e é por causa disso que o procuro”. Calo-me. Volta à carga: “Que tal um grande, coral ato de desobediência civil? A nação em peso deixa de pagar imposto”. Trata-se, convém, esclarecer de um especialista. Por ocasião de uma eleição, lá na terra dele, os Estados Unidos nascidos dos ideais dos Pais Fundadores, recusou-se a pagar a poll tax, a taxa eleitoral. Thoreau não tinha dúvidas: o voto é direito, não é obrigação. Naquele tempo, tinha grandes objeções em relação à transformação dos ideais em interesses da minoria abastada e predadora. Foi preso e padeceu o cárcere duro. Virou defensor da desobediência civil. “Veja – diz –, a moral transcende a política, ao chegarem os governos alimentam as melhores intenções e formulam os melhores planos, e logo desandam, a cada dia perdem integridade. Para os eleitores desiludidos sobra um único recurso, a desobediência civil”. Bela idéia, digo eu, mas irrealizável. Utopia, quimera, não no Brasil, em qualquer lugar. Assim como, é impossível uma devassa capilar e eficaz dos gastos privados dos poderosos nativos. É por isso que a história dos cartões corporativos vai morrer na praia. “Pelo menos – reitera –, o senhor poderia ser desobediente civil”. Obrigado pela sugestão, respondo, mas desse jeito também vou preso, como o senhor.
enviada por mino






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