10/01/2008 13:22
Ratzinger fala sobre o Inferno
Não tenho especial apreço pelo papa e pela instituição medieval mais longeva do mundo, a mais duradoura monarquia por direito divino. Mais do que isto: dirigida ao empíreo pelo próprio Deus. O preâmbulo é necessário ao dizer que li ontem no Corriere della Sera, o melhor diário em circulação (embora mirrada) no País, um texto assinado por Joseph Ratzinger em março de 1968. Faz parte de um livro recém-lançado na Itália pela Editora Rizzoli, intitulado Porque estamos ainda na Igreja. Reúne discursos e aulas do papa atual, pronunciados e ministradas ao longo de quarenta anos na Academia católica da Baviera. E agora confesso: trata-se de um texto magistral, na forma e no conteúdo. Tese central: o Inferno é a solidão. O homem teme a morte porque ela é o momento extremo da vida, aventura irremediavelmente solitária. Até na cruz, o próprio Jesus desce ao Hades, aos Ínferos, com seu grito de morte: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?. Deus escreve Ratzinger, não é somente a palavra compreensível, ele é também a causa silenciada e inacessível, incompreendida e incompreensível. E mais adiante: Ao conhecermos Deus como silêncio, poderemos esperar ouvir a fala que emana do seu silêncio.O teólogo não desdenha citar Sartre e Ernst Kasermann, na referência à aparente ausência de Deus", revelada pela realidade terrena. E vem a pergunta: Que é realmente a morte e que acontece depois, quando alguém morre e entra portanto no destino da morte?. E volta ao apelo desesperado de Cristo crucificado. O núcleo mais profundo da sua paixão não é a dor física, e sim a radical solidão, o abandono completo. O autor recomenda então dilatar o alcance da pergunta, para concluir: Inferno significa uma solidão na qual não mais se ouve a palavra do amor, significa a verdadeira suspensão de existência. De fato, algo é certo: Há uma noite em cujo abandono não chega voz alguma. Por isso um único vocábulo quer dizer ao mesmo tempo inferno e morte no Antigo Testamento: scheol. Enfim a palavra da esperança, que ao teólogo não poderia faltar: ao viver a morte como qualquer mortal, Cristo está onde voz alguma pode alcançar. No coração da morte fica a vida, fica o amor. Acho que crentes e não crentes haverão de concordar: o texto desvenda uma alma poética e um pensamento filosófico atilado.
enviada por mino
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