07/01/2008 17:34
O retorno e as peculiaridades brasileiras
Voltei. O mundo recusou-se a parar, a vida idem. De saída, no entanto, falarei da volta. Em solo pátrio, no aeroporto de Guarulhos, senti no fundo da alma e das panturrilhas o fato de não ter sido campeão da prova de marcha, a dos 20 quilômetros, ao menos. A constatação agulhou-me nas regiões citadas. Já sabia da paixão dos construtores do aeroporto por corredores estreitos e intermináveis, mas a gente se dá conta de tal obsessão no retorno. Não há coisa igual mundo afora. Sugiro, caso haja por parte do Brasil a intenção, ou a possibilidade, de remeter marchadores para as Olimpíadas de Pequim, que treinem no aeroporto de Guarulhos. É a pista perfeita. Segue-se ao cabo o encontro com a Polícia Federal, faz parte do cardápio. Seria, porém, aconselhável pedir às solertes moças espalhadas pela sala reservada à vistoria dos passaportes que deixem de berrar a necessidade de os recém-chegados manterem o documento aberto na página da fotografia. Este também é um pormenor de genuína marca nativa, a precipitar no passageiro, nacional ou estrangeiro, a estranha sensação de que as moças em questão consideram idiotas um e outro. Dá-se um revezamento, na hora de ganhar a saída, pelo acesso reservado a quem nada tem a declarar depois de recolhidas as malas. Funcionárias de nova safra, no mesmo tom de torcedoras na hora do gol, informam que a declaração sobre o conteúdo das malas há de ser mantida na mão, sem maiores esclarecimentos em relação ao comportamento de destros e canhotos. A respeito desse papelucho, cabe uma observação. Você tem de explicitar nele que não traz armas de fogo e venenos, bem como não ter gasto em terra alienígena mais de 500 dólares. Agradeci a Deus por não ter sido protagonista de viagem lacustre, no caso o limite baixaria para 150 dólares. Enquanto a maioria dos meus companheiros de viagem ganhavam de carrinhos superlotados a entrada do free-shop, de sorte a abarrotá-los ainda mais (muitos, precavidos, levavam carrinhos vazios), saí enfim em busca de um táxi. Diria Dante, enfim saí para rever as estrelas. Dava as costas ao próprio Inferno, o grande vate. De todo modo, vale um lembrete: free-shop na chegada é outra peculiaridade verde-amarela. Não existe em qualquer outro lugar do planeta. Está aqui para enriquecer alguém, não tenho a mais pálida dúvida.
enviada por mino
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