04/12/2007 13:26
"O comandante encolheu"
Liguei para Antonio Gramsci. Ele está em Ghilarza, na região do Oristano, Sardenha central. As paredes de sua casa são de imaculada brancura, uma exibe a transcrição de um texto dele, escrito à mão. A cama é de ferro esmaltado, a mesa de trabalho de madeira de lei, o carvalho sardo que produz a melhor cortiça das rolhas de vinho. Por Ghilarza tenho especial afeição, meu avô paterno era do lugar, e por lá tenho primos. O sobrenome Carta é muito comum na ilha, sobretudo na zona de Oristano. Pretendia saber de Gramsci que achou da derrota de Hugo Chávez no referendo de domingo passado. Como CartaCapital escreveu comentou, o comandante subestimou a capacidade de mobilização da direita venezuelana, e o impacto negativo do seu socialismo do século XXI. Seguiu-se o seguinte diálogo.
Eu: Bom ou mau?
Ele: Não sei, tenho dúvidas em relação ao socialismo de Chávez, como tive em relação ao comunismo soviético, embora eu fosse comunista convicto.
Eu: Quais dúvidas?
Ele: Como diria? Intelectuais, culturais. Temo que se trate de algo assim como um sincretismo religioso, a colocar Bolívar entre as imagens da santeria, o candomblé venezuelano. Bolívar e outros heróis da hagiografia política mais ou menos revolucionária, Fidel entre eles.
Eu: Ou seja?
Ele: Parece-me a tentativa de formular uma ideologia confusa, caótica até. Estão claros alguns pontos apenas: o petróleo é a alavanca do poder chavista, a ferrenha agressão verbal contra Bush estimula o nacionalismo latino-americano, um dos objetivos é surgir na ribalta como o herdeiro de Fidel Castro, o projeto é inegavelmente caudilhesco.
Eu: Mas ele na presidência produziu avanços sociais notáveis.
Ele: É verdade, os propósitos opositores reconhecem, e não há como deixar de louvar muitas iniciativas de Chávez a favor do seu povo. Mas o personalismo dele, o egocentrismo obsessivo põe em xeque os avanços sociais.
Eu: De todo modo, ele aceitou tranquilamente o resultado do referendo.
Ele: E fez muito bem, gostaria que fosse prova de maturidade política. Porque a derrota de domingo vai custar caro, sobretudo se Chávez não souber dar continuidade ao recuo estratégico, a fim de reconquistar a confiança dos seus parceiros do sub-continente.
Eu: Quer dizer que...
Ele: Quer dizer que Lula e companhia vão encarar Chávez, a partir de hoje, de forma diferente em relação ao passado recente. Aos olhos deles, o comandante encolheu, necessariamente. O peso político de Chávez diminuiu bastante.
enviada por mino
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