09/11/2007 19:23
Para Patricia flanar em Roma
Minha sobrinha Patricia, que comanda a Carta Editorial (Vogue e Cia) vai a Roma com as três filhas, e me procura para colher dicas. Ficará no Hotel Éden, antigo e senhorial, com portamento de cavalheiro de outros tempos. Recomendo, porém, que não deixe de tomar chá no bar do Hotel dInghilterra, o preferido do pai dela, Luis, o irmão que se foi antes do tempo, e meu. Em Roma, a cidade onde eu teria gostado de viver, a mais bela e apaziguante, a única do Ocidente que guarda intacta e fartamente documentada a memória de três mil anos de história, em Roma, dizia eu, há um programa cultural inescapável. São Pedro e os museus do Vaticano: Capela Sistina, Stanze de Rafael, Capela do Papa, Pinacoteca, etc. etc. Coliseu e Foro Romano, sem esquecer de contemplar os foros de Trajano, logo ao lado. O Capitólio, projetado e em parte realizado por Michelangelo. O Moises do próprio, em San Pietro in Vincoli. As Basílicas. As praças deslumbrantes: Navona, Del Popolo, Farnese, Campo dei Fiori, onde, a 17 de fevereiro de 1600 Giordano Bruno morreu nas chamas ordenadas pelo cardeal Belarmino, mesmo assim elevado à glória dos altares. E por aí afora. Permito-me, porém, formular um roteiro pouco freqüentado. Saída de Piazza Colonna, depois de uma volta pela galeria Alberto Sordi, sem excluir, quem sabe, uma entrada na fantástica Livraria Feltrinelli. Deslizar para a Piazza de Montecitorio, cenário da Câmara dos Deputados. De lá caminhar para Piazza de Pietra, onde as colunas de um templo romano de dois mil anos atrás sustentam generosamente o antigo prédio da bolsa. Pela Via de Burro (manteiga em italiano) flanem até Piazza SantIgnazio e lá se deparem com um ambiente setecentesco digno de uma peça de Goldoni, a ser visto da escadaria da igreja do próprio santo, o temível guerreiro da Contra-reforma. É uma das três mais importantes igrejas barrocas romanas. Dentro, o afresco da abóbada, de Andrea da Pozzo, pintor do século XVII, lança na direção do empireo santos e anjos numa perspectiva vertiginosa. Logo em seguida, você vê o interior de uma cúpula, de verdade é uma superfície plana, pintada pelo mesmo da Pozzo, o maior trompe loeil do mundo. De Piazza SantIgnazio, seguindo pela lateral da igreja, chega-se a outra praça, dominada pela porção posterior do Palácio Doria Panphili. Museu que recomendo visitar, por um bom número de razões. Primeira, trata-se de uma galeria de nobres de vários séculos atrás, mantida exatamente como se apresentava quando foi concebida. Segundo, contém três Caravaggio excepcionais, e um Velásquez celebérrimo, retrato de Inocênio X, confrontado, lado a lado, com o busto do mesmo papa esculpido por Gian Lorenzi Bernini, o maioral entre os barrocos. Dali até Piazza della Minerva, com parada obrigatória na igreja de Santa Maria, gótica, surgida sobre um templo romano dedicado à deusa da sabedoria, Minerva, que os gregos chamavam Pallas Atheneia. Na igreja, o túmulo de Santa Catarina da Siena, feminista ante litteram, uma estátua de Michelangelo, Cristo insólito, e a deslumbrante capela afrescada em 1400 por Filippino Lippi. Daí ao Panteon são cinco minutos, mais uma parada obrigatória. O Panteon é uma construção de 1900 anos atrás, templo transformado em igreja pelos papas, mas conservado à perfeição, em sua imponência magistral. Fronteiriça, uma das praças mais encantadoras das suas vidas, sugiro tomar um copo de vinho branco em um dos bares que ali se espalham em suave modorra. Progridam em seguida na direção de San Luigi dei Francesi, e deixem cair seus queixos diante da Capela Contarelli, adornada por três telas de Caravaggio destinadas a contar a história de São Mateus. Obra prima de tirar o fôlego do mestre do chiaroscuro. Logo adiante, na segunda travessa à esquerda, outra igreja, de Santo Agostino. Para variar, mais um estupendo Caravaggio, a Madonna dei Pellegrini, de verdade (verdade factual) retrato de uma das amantes do pintor a erguer nos braços seu próprio filho, a mesma que aparece na Madonna dei Palafrenieri, no Museu de Villa Borghese. Mais três minutos, e vocês podem repousar na Piazza Navona. Para tal andança, não hesitem em recorrer às indicações dos transeuntes, adoram ajudar quem se fascina com a beleza e a graça de Roma. Uma visita ao museu Borghese é indispensável. Foi reformado há alguns anos. Se digo extraordinário sou comedido. É preciso reservar a visita, mas o concierge cuida disso. Passear pelo antigo gueto, ou por via Margutta, ou alcançar o Pincio, o terraço do Parque de Villa Borghese, são programas altamente recomendáveis. Sem falar de Trastevere, com a possibilidade de almoçar, ou jantar no Sabatini, onde se come um bom spaghetti alle vongole veraci, sem desprezar o peixe no sal, diante da praça de Santa Maria, iluminada pela fachada da igreja e por seus mosaicos. Ah, sim, faltou dizer muitas coisas mais. Por exemplo: que tal descer do Pincio e visitar a igreja de Santa Maria del Popolo, onde casou nonna Adele, para admirar mais dois Caravaggio, a Crucificação de Pedro e A Queda de Saulo no Caminho de Damasco? Paro por aqui, que falta muito mais.
enviada por mino
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