22/11/2007 20:28
O volúvel Berlusconi
Silvio Berlusconi é volúvel. Anos atrás fundou um partido que batizou de Forza Italia, ao aproveitar-se de um grito da torcida da Azzurra. Em torno da agremiação formou-se a aliança dita de centro-esquerda. Cabem dúvidas quanto à palavra centro.
Em 1994, Berlusconi conseguiu eleger-se, com o apoio da Alleanza Nazionale, herdeira do neofascismo, dos ex-democratas-cristãos da UDC e da Liga Norte, separatista. Sete meses depois da posse, a Liga rompeu o pacto e o governo caiu. Foi a vez da coligação de centro-esquerda, liderada por outro ex-democrata-cristão, este, porém, da linha mais à esquerda, Romano Prodi.
Período de tensão interna e excelentes resultados internacionais. A Itália portou-se à altura das exigências de Maastricht, entrou na UE e na área do euro como time de Primeira Divisão. Nem por isso, o centro-esquerda evitou a derrota nas eleições que se seguiram, e Berlusconi voltou ao poder, com a garantia da fidelidade da Liga.
Dizia Antonio Gramsci que a Itália consegue ser, ao mesmo tempo, cosmopolita e provinciana. A chamada pequena burguesia, que já sustentou Mussolini desde a Marcha sobre Roma de 1922, passou a ser o caldo de cultura em que Berlusconi mergulha, com seus jaquetões e o sobrolho erguido na certeza de estar sempre a agradar ao auditório.
O nosso herói teve o desplante de chamar de Casa da Liberdade sua coligação e esmerou-se na tentativa de vender aos italianos a felicidade, como o doutor Dulcamara vendia o elixir de longa vida na praça apinhada. Em diversas ocasiões conseguiu convencer a porção provinciana da platéia, disposta a admirar o vendedor de fumaça.
Duvidosas, para dizer pouco, são as origens da fortuna berlusconiana. Conhecidas as suas ligações com a máfia siciliana, bem como com políticos e juízes corruptos, decisivos para sua ascensão, a começar por Bettino Craxi, o ex-premier condenado a oito anos de reclusão, e falecido no exílio forçado na Tunísia. Caso voltasse à Península, acabaria na prisão.
O mais endinheirado cidadão italiano, dono da maior rede privada de comunicação da Itália, Silvio Berlusconi é o próprio estandarte do conflito de interesses no momento em que se apresenta como líder partidário e, nem se fale, primeiro-ministro. Algo novo acontece, porém.
Derrotado nas eleições de abril de 2006 pela coligação de centro-esquerda, voltou ao poder Romano Prodi, o professor de fala pausada, como se cada palavra tivesse de ser extraída a saca-rolha. Vitória apertadíssima. Maioria tranqüila na Câmara, praticamente equilíbrio no Senado, onde Prodi necessita dos votos dos senadores vitalícios, em boa parte em idade avançada e saúde abalada.
Neste ano e meio no comando do governo, Prodi sustentou-se com alguma dificuldade, sobretudo quando o julgamento da questão em pauta dependia do Senado. No decorrer do período, Berlusconi prometeu o desastre dos centro-esquerda e nos últimos dois meses avisou à nação que o governo estava na iminência de cair. Não foi bom profeta.
O centro-esquerda, neste ínterim, farejou o risco, decidiu recompor suas fileiras e lançou o projeto do Partido Democrático, destinado a reunir em uma única agremiação os Democráticos de Esquerda, ex-comunistas, e a Margherita, liderada por Prodi. A idéia prosperou e 3,5 milhões de italianos votaram a favor dela em plebiscito, e elegeram Walter Veltroni, atual prefeito de Roma, como seu líder. Bastavam 1,5 milhão de votos a favor para que a iniciativa fosse considerada um sucesso.
Berlusconi malogrou em duas frentes. Mas há a terceira. Ele acaba de anunciar o fim da Forza Italia em proveito da criação de um novo partido, disposto a englobar a direita em bloco. Aceitou o desafio do centro-esquerda, mas com sua arrogância conseguiu desagradar aos parceiros ex-neofascistas e ex-democratas-cristãos da linha mais conservadora, enquanto a Liga permanece em cima do muro.
Cabe no enredo a suspeita de Gianfranco Fini, líder da Alleanza Nazionale, de que tenha sido Berlusconi quem estimulou a divulgação de informações picantes sobre seu afastamento da família em proveito do namoro com uma starlet da tevê, a qual vai presenteá-lo com um herdeiro. Pelo menos no plano social, a ruptura entre os dois políticos é fato, corroborado pela troca de frases fortes.
Berlusconi sustenta ter sido o cupido do romance (eu apresentei a moça ao Gianfranco) e anuncia que seu novo partido, a ser chamado da Liberdade, ou do Povo, conta desde já com mais de 30% dos votos. Não bastam para ganhar o próximo pleito. Precisa dos aliados, mas neste momento a antiga coligação navega por águas revoltas. Há quem se divirta muito com o espetáculo.
enviada por mino
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