14/11/2007 19:11
Às vezes lamento gostar de futebol
Que visa a subversão? A destruição de um sistema. Os torcedores fanáticos da Itália, chamados ultrà, podem ser facilmente encarados como subversivos que, nos métodos, resvalam no terrorismo. Como tais, o governo pretende enfrentá-los. Estas torcidas, acostumadas a tomar as curvas dos estádios, não alimentam um projeto global, unificado, mas estão perfeitamente sintonizadas nos objetivos, e combatem as forças da ordem porque estas defendem o sistema que pretendem derrubar. Na maioria, trata-se de organizações de extrema direita, de inspiração fascista, e no último domingo sua ação chegou ao ponto de perpetrar em Roma um ataque a um quartel da polícia. Nos anos 70, as Brigate Rosse que ensangüentaram a península, nunca tinham chegado a tanto. Neste momento, chovem prisões e medidas de emergência, severíssimas, estão a ser definidas para coibir de vez a violência nos estádios. Como se sabe, o estopim da guerra de domingo passado foi a morte de um torcedor, morto por um policial desastrado. Não é admissível que ele tenha mirado no jovem romano, torcedor da Lazio. Parece bem mais aceitável atribuir o tiro fatal à incompetência e à tensão. A vida, está claro, tem valor inestimável, mas é bom acentuar que a larguíssima maioria dos amantes do futebol, na Itália, ficam do lado da polícia, chamada a protegê-los. Quem viu as cenas da arquibancada do jogo Atalanta-Milan, em Bergamo, suspenso depois de 7 minutos quando os ultrà começaram a destruir o alambrado, deve ter percebido o desalento do público e o choro das crianças que acompanhavam seus pais. Era uma cena pacata, familiar, em contraste com a prepotência selvagem de poucos. É de pasmar que um futebol tão rico como o italiano se torne refém de uma minoria de facínoras. Este é, porém, um dos pontos da questão: o dinheiro aos magotes, nem sempre bem justificado, a despertar suspeitas de lavagem. O maior problema do esporte, a esta altura, é a grana excessiva, a envolver dirigentes e jogadores com os próprios ultrà, na estranha convicção de que o espetáculo também precisa deles. História lamentável. Às vezes, e mesmo amiúde de uns tempos para cá, lamento gostar de futebol.
enviada por mino
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