15/11/2007 20:21
Acusações graves e sem resposta
Seria como se alguém ofendesse um semelhante ao alegar os maus hábitos da mãe e, ao ser processado por calúnia, conseguisse do juiz o condão da verificação prévia das aptidões da progenitora. Tempos atrás, o delegado Paulo Lacerda, ainda na chefia da Polícia Federal, informou que, antes de agir contra o banqueiro Daniel Dantas e a revista Veja, pela divulgação de informações sobre pretensas contas de autoridades brasileiras, a começar pelo próprio presidente da República, em paraísos fiscais, seria preciso esperar pela demonstração cabal da inexistência das mesmas. Recentemente, o delegado Disney Rosseti, encarregado do caso, ainda sob segredo de Justiça, confirmou as palavras do ex-chefe Lacerda.
Pretenderia eu abrir a porta escancarada ao dizer que bancos estabelecidos em paraísos fiscais não costumam fornecer os nomes dos titulares de contas. No caso, seriam, conforme reportagem de capa de Veja abastecida pelo banqueiro do Opportunity, entre outros, além do presidente Lula, o então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, e o mesmo Paulo Lacerda. O qual, suponho, deve ter certeza de não ter escondido dinheiro no exterior.
Certo é caber a pergunta: que País é este? Acusações tão graves, a atingir até o primeiro mandatário, até hoje estão sem resposta. Por quê? Eis o primeiro mistério doloroso. Há outros, porém. Intermináveis. Citarei alguns, sem pretensões de estabelecer uma hierarquia entre eles, ao sabor da importância de cada qual.
Por que Dantas negou ter fornecido os elementos para a reportagem de capa de Veja para ser desmentido em seguida pela revista, capaz de reconstituir com profusão de detalhes os passos precedentes à publicação, todos relacionados com a ativa participação do banqueiro?
Diga-se que profissionais de Veja insistem no envolvimento de Dantas. Um deles acaba de publicar um livro em que aparece o número da conta pretensamente atribuída ao presidente Lula, e lhe declina a origem: o infatigável banqueiro.
E aqui não destoa outra pergunta. Por que, neste exato instante, desencadeia-se, no Brasil e na Itália, uma campanha para provar que o lobo é a Telecom Italia, enquanto sobraria para o orelhudo o papel de cordeiro? Quanto às intenções da movimentação toda, CartaCapital não tem dúvidas. Tem em relação às razões na escolha do momento. Haveria, por parte dos apaniguados do banqueiro, a percepção de que nuvens carregadas perfilam-se no horizonte?
Como foi esclarecido na edição anterior de CartaCapital, a atuação dos serviços de segurança da Telecom Italia não é menos condenável do que da Kroll a serviço de Dantas. É posterior, no entanto. Explica-se. Quando, no Brasil, a direção da operadora italiana entendeu que estava sendo espionada, e incumbiu sua segurança de cuidar do assunto.
Marco Bonera, diretor de segurança de Pirelli e Tim na América Latina, graças à centralização de um sistema antes fracionado, vivera até então, 2002, dias tranqüilos. Diz ele ter criado um sistema ineludível, a qualquer sinal de alarme entraria em ação capilarmente sem oferecer ao espião a mais pálida chance de não deixar traços da sua interferência ilegal. Foi o que se deu quando Dantas convocou a Kroll.
Chegaram a ser encontrados nos escritórios de Tim e Pirelli aparelhos de escuta telefônica e microtransmissores, e desde aquele momento, 100% do trabalho do serviço de segurança da empresa passou a dedicar-se à contramanobra destinada a sustar a operação dantesca. Resultou em farto material, que certamente contribuiu para a investigação posteriormente realizada pela Polícia Federal. E na Operação Chacal, e no indiciamento de Dantas.
O processo chegou às mãos do procurador-geral da República, Antonio Fernando Barros de Souza, o qual, até agora, quatro anos após, não ofereceu a denúncia. Quanto ao disco rígido retirado pela PF do computador do Opportunity, depois dos entraves levantados pela então relatora do STF, juíza Ellen Gracie, acabou por receber a autorização de quebra do sigilo pelos desembargadores da segunda turma do Tribunal Regional de São Paulo em dezembro do ano passado. Por que até hoje o Brasil não lhe conhece o conteúdo?
Giuliano Tavaroli, superior hierárquico de Bonera na qualidade de chefe da Security da Telecom Italia, no Brasil possivelmente apurou-se no seu mister, do qual já era mestre. É certo que na Itália montou um esquema de espionagem para atingir starlets e futebolistas, mas também políticos e empresários graúdos. Por conta própria, ou por ordem de Marco Tronchetti Provera então boss da Pirelli e da Telecom? Diz Tavaroli que Tronchetti Provera nada sabia. A gente permite-se duvidar. De todo modo, preso por suas façanhas, Tavaroli passou quatro meses em prisão domiciliar e hoje, em liberdade, mas réu em processo ainda em fase de instrução, deita falação.
Em primeiro lugar, em proveito da semanal Panorama, que pretende revelar um esquema de propinas destinadas a azeitar as relações com autoridades brasileiras. Trata-se de um complicador, a exigir resposta. Relativa inclusive à atuação de Naji Nahas, o cavalheiro que dispensa apresentações, contratado por Tronchetti Provera como mediador junto a Daniel Dantas, ao sabor de um contrato de 25 milhões de euros.
E os mistérios alastram-se como mancha de óleo. Surge em cena Luciane, ou Luciana Araújo, brasileira, tradutora juramentada, incumbida, ao que parece de verter Tavaroli durante os interrogatórios dos juízes instrutores e no momento pronta a conceder entrevistas empenhadas em fortalecer a tese do lobo Telecom e do cordeiro orelhudo. E ela também alude à fantasmagórica conta do presidente metalúrgico.
E há ainda a contribuição de figuras bem mais graúdas, sempre inclinadas a funcionar como amortecedores neste caso que envergonha o Brasil. Personagens que saíram do governo, e ainda assim continuam a manter notável influência e a proteger quem não merece.
enviada por mino
Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)