Mino Carta - dirigiu as equipes criadoras do Jornal da Tarde e das revistas Quatro Rodas, Veja, Istoé e CartaCapital, da qual é diretor de redação.


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18/10/2007 12:42

Recado aos colegas peninsulares

Volto ao meu blog depois de curto e proveitoso outono. Fui à Itália chamado para dois debates. Um em Ferrara, jóia estética da Emilia Romagna, sobre duas personagens chave da atualidade latino-americana, Lula e Chávez. Outros temas estiveram em pauta, de 5 a 7 de outubro, com a participação de quarenta conferencistas vindos de vários cantos do mundo, inclusive da China. O segundo debate deu-se em Roma, no Instituto Latino-Americano, a focalizar a atuação das mídias de um lado e de outro. O ILA é um braço da chancelaria italiana, hoje dirigida por um amigo do Brasil, o ministro Massimo D’Alema. Aqui eu disse que existe desconhecimento recíproco. A mídia brasileira pouco, muito pouco sabe da Itália de hoje, e a mídia italiana porta-se do mesmo modo em relação à gente. Sobra espaço para o lugar comum, o estereótipo e o cartão postal. Não deixei de sublinhar, no entanto, que a falha lá deles é pior do que a nossa. O que move o jornalismo são as situações, as personagens e o interesse do público. A América Latina é rica em situações e personagens, com peculiaridades e complexidades próprias em cada país do subcontinente. Como podem escapar ao cardápio diário figuras como Lula e Chávez, Correa e Evo Morales, a senhora Bachelet (que, aliás, estava em Roma) e a senhora Kirchner? A existência, ou não, de uma esquerda em plena evolução e os comportamentos das igrejas? Etc.etc. A imprensa espanhola, por razões óbvias, dá cobertura bastante ampla aos acontecimentos latino-americanos. Já a italiana, com exceção do Il Corriere della Sera e do Il Sole 24 Ore, raciona informações sobre a América Latina em geral e o Brasil em particular, a não ser, neste caso, que o assunto não seja o futebol. Declarei a minha perplexidade, a considerar pratos cheios, claramente destinados a solicita o apetite do público. Não chego a imaginar que as orelhas dos colegas peninsulares estejam a doer depois da minha intervenção, mas é certo que dei meu recado. Quanto ao debate de Ferrara, fiquei surpreso com a afluência dos interessados. Cerca de 500 pessoas na platéia do deslumbrante Teatro Estense, renascimental, e mais 500 na calçada, diante do telão. Larga maioria de jovens. Disse lá que a diferença entre Lula e Chávez está no recuo um tanto exagerado daquele, e no avanço, francamente exagerado, deste. Disse também que a vitória de Lula em 2002, e mais ainda a reeleição, significam com implacável clareza a derrota da mídia brasileira. E mais, que Lula, se quiser, faz seu sucessor. Enfim, declinei minha aposta no povo brasileiro, é nele que deposito minha esperança.
enviada por mino






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