Mino Carta - dirigiu as equipes criadoras do Jornal da Tarde e das revistas Quatro Rodas, Veja, Istoé e CartaCapital, da qual é diretor de redação.


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31/10/2007 22:04

A rasteira no guarda

Ontem conheci pessoalmente Paulo Planet Buarque. O cavalheiro de 80 anos não nega os traços do jovem que costumava aparecer nas páginas da Gazeta Esportiva no fim dos anos 40. Naquele tempo, eu a lia pontualmente e torcia pelo Palmeiras enquanto meu irmão Luis, só para acender uma polêmica, preferia o Corinthians. Formado em Direito, Paulo foi jornalista da escrita e depois, por largo período, do rádio e da tevê. Hoje exerce a advocacia. Falamos da vida como velhos amigos. Ao cabo, antes da despedida, quis saber dele como se deu um célebre episódio ocorrido no encerramento do jogo do Mundial de 1954 em que o Brasil foi eliminado pela Hungria. Recordo uma foto de Paulo colhida no momento em que derruba um policial suíço ao usar o guarda-chuva como sarrafo. Depois, no túnel de vestiário, os jogadores das duas seleções engalfinharam-se e o chefe da delegação canarinho, Carlos Nascimento, atirou uma chuteira no rosto do ministro dos Esportes húngaro. Dou a palavra ao próprio protagonista da remota imagem. “Antes do campeonato, estivera na Hungria, e lá vi jogar o Honved, que era base da seleção magiar. Fiquei impressionado, nunca vira um futebol tão brilhante, praticado por jogadores excepcionais, Koksis, Csibor, Hideguti e, sobretudo, Puskas, gênio do gramado. Voltei para cá e avisei: destes é muito difícil ganhar. Dito e feito, perdemos nas quartas de final na Suíça. Mas houve, ao longo da partida, uma série de decisões do juiz inglês Ellis capazes de provar, aos meus olhos, más intenções. De sorte que, quando o homem trilou o apito final, invadi o campo, sem maior esforço, diga-se, a cerca tinha no máximo um metro de altura, e caminhei na direção de mister Ellis. Um guarda percebeu meus propósitos, encarou-me e eu, num piscar de olhos, passei-lhe a rasteira de guarda-chuva. Ele caiu, levantou-se logo e levou a mão ao bolso. Achei que ele iria pegar no revólver, que nada, extraiu um lenço e com ele limpou diligentemente a farda. Logo fui cercado por alguns jogadores brasileiros, me carregaram para o corredor do vestiário onde assisti à briga. Maurinho, o ponta-esquerda, entrou no reservado dos húngaros, um segundo após passou em vôo sobre a minha cabeça. Saí do estádio disfarçado, enfiado dentro de uma capa, capuz a me encobrir o rosto, de braço dado com Nascimento, fingindo ser sua mulher. Dois anos depois, mister Ellis foi expulso do rol de juízes internacionais, e eu soube que era filiado ao Partido Comunista. É isso, ele torcia pelos húngaros”.
enviada por mino






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