Mino Carta - dirigiu as equipes criadoras do Jornal da Tarde e das revistas Quatro Rodas, Veja, Istoé e CartaCapital, da qual é diretor de redação.


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21/09/2007 19:18

Veremos

Jean-Paul Lagarride não me dá folga. Ligou de novo, de Paris, viu na internet a entrevista de Ciro Gomes a CartaCapital. “De arrebimbar o malho”, comenta, de saída. Digo que Ciro sempre fala grosso. “Mas este negócio de se apresentar como esquerdista despudorado é muito forte, no Brasil, ou melhor, no Brazil, zil zil”. “Pelo jeito ele entende ser este o momento de defender com todas as forças o enfrentamento da questão social, que é o mal maior”, esclareço. Pondera: “Está é a se arriscar muito, a mídia, os tucano-udenistas, as classes A e B não vão gostar, se ficar nesta rota até virar candidato à sucessão de Lula, vai por tudo a perder, é muita ousadia, de esquerda, imagine, e ainda mais, despudorada”. “Vai ver”, argumento, “acha que as coisas estão de mudança, percebe sinais de que o povo não é tão resignado, tão cordial quanto os donos tradicionais do poder gostariam, e é ali que pretende colher votos em 2010”. “Como sempre você é muito otimista em relação aos humores do povo brasileiro”. Retruco, manso: “Engraçado, um dia sou otimista demais, outro dia pessimista demais, Jean-Paul, por favor tome uma posição definitiva a meu respeito”. Manso também, o velho amigo explica: “Quero dizer que você se ilude quando avalia a capacidade de reação do povo”. “Houve tempo de grandes ilusões, precipitadas pela esperança, época da ditadura, e as ilusões ruíram miseravelmente quando, falida a extraordinária iniciativa das Diretas-Já, vieram Sarney, Collor, Fernando Henrique Cardoso. Com a primeira eleição de Lula...” Interrompe: “Você voltou a se iludir”. “Sim, de certa forma. Mesmo assim, um fato é inegável, o povo não deu ouvidos à mídia e elegeu o candidato com quem se identificava, pela primeira vez não quis um bacharel engravatado”. “E na reeleição?” “Pois é, a reeleição é ainda mais revolucionária do que a eleição, por quase dois anos Lula foi bombardeado como Londres durante a Battle of Brittain, e nem por isso deixou de repetir o êxito de quatro anos antes, foi vitória avassaladora, e a derrota idem da mídia e de sua platéia”. “Mas você está satisfeito com o governo de Lula?” “Não, não estou, esperava dele muito mais, o que esse governo produziu para o povo brasileiro foi pouco, pouco mesmo”. “O povo, o povo, sempre o povo, isto cheira a demagogia”. “Se reconhecemos que a desigualdade social é o maior problema do País, não é”. “Está bem, mas não seria o Ciro um demagogo?” “Creio que ele esteja a definir seu campo de ação, a se valer da percepção da mudança em curso, que eu compartilho”. “Mas a mídia, as classes A e B ...” Desta vez sou eu quem interrompe. “As mais reacionárias do mundo, e, ao que tudo indica, Ciro está disposto a desafia-las”. “Veremos, veremos”. “Veremos”.
enviada por mino






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