19/09/2007 20:20
Outsider
Ontem à noite, no salão do Tom Brasil, local de festivos eventos, recebi pela terceira vez em cinco anos o Prêmio Comunique-se na categoria Executivo de Veículo de Comunicação. Com isso, ascendo à condição de Mestre em uma espécie de Hall of Fame de inelegíveis. As terminologias Executivo e Mestre não me empolgam, mas o prêmio me toca bastante. Por dois motivos, conforme disse em breve discurso de agradecimento. Primeiro. O comunique-se é o alvissareiro oposto de outros prêmios jornalísticos conferidos por júris de profissionais por meio da aplicação fervorosa da regra franciscana, é dando que se recebe. Resultam de arreglos prévios, pelos quais quem concede aqui, ganha acolá. O Comunique-se vale-se da votação espontânea de jornalistas de todo o País, via internet. Nesta quinta rodada, votaram 77 mil profissionais, livres de injunções profissionais e pressões empresariais. E eu me apresso a louvar a iniciativa da equipe comandada por Rodrigo Azevedo, ao criar um prêmio que honra, e comove, quem o recebe. Segundo motivo. Sou jornalista atípico, a começar pelo fato de que nunca chamei o patrão de colega e os subordinados, na hierarquia da redação, de meu repórter, meu redator, meu redator-chefe. Jamais folguei no possessivo. Sou atípico, também e sobretudo, porque a partir de fevereiro de 1976 tive de inventar meus empregos para fazer jus ao salário, do qual necessito até hoje. Não há patrão nativo, de jornal ou revista, que me queira ao seu lado. Não me desagrada ser incômodo, muito pelo contrário, faz 31 anos desde o dia em que me demiti da direção da revista Veja e do board da Editora Abril (Mario Sergio Conti, pasme, eu me demiti) para recusar um único, escasso centavo dos donos da Abril. Em compensação, com a minha saída, eles foram presenteados com o fim da censura em Veja e com um empréstimo de 50 milhões de dólares da Caixa Econômica Federal, até então vetado pelo ministro da Justiça (Justiça?) Armando Falcão, a serviço do ditador de plantão Ernesto Geisel. Deixo claro que tenho aí um motivo de enlevada satisfação, material precioso de histórias a serem contadas aos netos, e que, nestes 31 anos, vivi a melhor fase da minha vida de profissional de imprensa. Mesmo em meio a percalços e riscos, abasteci a memória de com alegria e diversão. Como se dá neste instante, ao ser escolhido para o prêmio por um eleitorado de 77 mil cidadãos, confrontado com figuras que a chamada grande imprensa expõe com freqüência e destaque, poderosos cabos eleitorais. Creio, de todo modo, que outro prêmio seja mais importante do que o meu, justificado pela longa exposição favorecida pelo adiantado da idade. O prêmio de jornalismo cultural, categoria mídia impressa, conferido a outro profissional de CartaCapital a editora Ana Paula Sousa. Na corte das figurinhas carimbadas de Globo e jornalões, o outsider surpreende. Não a mim, está claro, Ana Paula é jornalista de primeira, e em plena ascensão. Mas a escolha mostra, de forma bem mais peremptória do que no meu caso, o sinal de alguma percepção mais atenta e funda por parte dos votantes do Prêmio Comunique-se. Por mais solitário e isolado que possa parecer.
enviada por mino
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