24/09/2007 16:10
Didático
O meu telefone trila a toda hora, prefiro os passarinhos que, nesta época, cantam sem interrupções na madrugada paulistana. Desta vez, liga Cassandra, e, claro, está muito preocupada. A preocupação é a normalidade de Cassandra. Só muda o motivo, desta vez trata-se das mais recentes safras de livros didáticos para alunos do curso básico da escola pública, entre a quinta e a oitava série. Elabore digo com o tom do discípulo de Freud de algum filme de Hollywood. Leio que estão encharcados pela ideologia, são instrumentos de doutrinação dos futuros cidadãos. Treme-lhe a voz. Como assim?. Um destes panfletos, lá pelas tantas, sustenta que Cuba, embora sujeita a uma longa ditadura, conseguiu melhorar os índices de educação e saúde em relação aos tempos de Fulgencio Batista. E não é verdade? Irrita-se. Verdade, verdade, você deveria saber que a verdade não existe! Sim, sim, a verdade que cada um carrega na sua cachola... Falo é de verdade factual. Diz que Stalin foi um ditador feroz mas que Mao Tse-tung era um nacionalista. E não é isso mesmo? Comenta Cassandra: Hoje você não está receptivo. Não, não, tento remediar, é que o udenismo triunfa na mídia brasileira, mas não sei da sua boa fé. Insiste: E o jornal O Globo, que publicou na sexta-feira um breve, mas candente editorial sobre o assunto, não está em boa fé? Não sei, querida, digo eu, que trato Cassandra com afetuosa intimidade, receio que estes jornalões e revistões estejam a cuidar dos interesses das editoras que os publicam, grandes, enormes empresas, fizeram da produção de livros didáticos um maná a cair sobre suas cabeças, patrocinado pelo governo, o eterno príncipe generoso dos privilegiados. E parece que, de repente, entrou boi na linha. Isso também preocupa, mas hoje você está impossível, decreta Cassandra. E desliga.
enviada por mino
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