Mino Carta - dirigiu as equipes criadoras do Jornal da Tarde e das revistas Quatro Rodas, Veja, Istoé e CartaCapital, da qual é diretor de redação.


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25/09/2007 20:19

Cesar não cruzaria o Tigre

Os jornalões hodiernos celebram a recuperação da Bovespa. Sempre me pergunto, ao tropeçar em manchetes tão retumbantes, que aconteceria se estourasse a terceira guerra mundial. Os privilegiados do Brasil respiram aliviados, grana estrangeira alimenta o mercado financeiro. Gostaria de colher uma nota negativa, em meio à euforia, e ligo para Cassandra. Em Esmirna. Pergunto mansamente: “Que tal?” Responde: “Não ouvem o Vesúvio quando ronca”. O Vesúvio? “Pois é, quando o Vesúvio começou a roncar, ninguém, em Pompéia, reparou, ou quis reparar”. Consegui o que buscava. Digo: “Então, o terremoto ainda há de vir?” “Bem, o processo tem sua complexidade, de verdade o abalo iniciou-se há tempo, e paulatina, mas inexoravelmente, sobe na Escala Richter. Esta crise recente, e que permanece no ar, deveria levar as gentes a meditar sobre seus significados, e o primeiro deles é que o império tem pés de argila”. O império? “Sim, o império americano, o Império único depois da queda do Muro, que afoitamente se credenciou a repetir Roma. Nada a ver, meu caro, nada a ver”. “Quer dizer, arrisco que os Estados Unidos...” Interrompe: “A hegemonia está em xeque, e tudo aconteceu em um piscar de olhos. Isto desperta e arma outras áreas, e anima a agir acima de qualquer vassalagem, com autonomia total, a Europa de um lado, a China, e o Oriente em geral, de outro”. E então, como interpretar o fenômeno? “Os sinais são nítidos, inconfundíveis. De naturezas diversas. Por exemplo: você acha que o Império Romano embarcaria na guerra do Iraque? Nunca. Roma no apogeu partia para guerras de conquista, e ponto. A guerra do Iraque é da incompetência e do desespero, pior seria a guerra contra o Irã. Os Estados Unidos são Império em xeque antes de atingir o apogeu”. Mas os democratas ganham por lá a próxima rodada eleitoral e vão aposentar a política de Bush Junior. “As coisas”, diz Cassandra, “tomaram um rumo do qual, a esta altura, é difícil escapar”. E aí? “Aí parece-me que vamos na direção do fortalecimento dos protecionismos, da limitação dos mercados financeiros, do fim da globalização, ao menos na acepção que pretendemos atribuir-lhe”. Ora, como viver sem o deus mercado? “Os meus deuses tinham muito interesse pelos homens, embora brigassem bastante entre si, nas alturas do Olimpo. Já os deuses de vocês não ligam a mínima para o destino do ser humano. Não estão nem aí. Inclusive o deus Mercado”. Garanto: “Não vou relatar nossa conversa, não quero provocar o pânico”. “Tadim”, retruca, “quem lhe daria ouvidos?”
enviada por mino






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