27/08/2007 19:28
O Príncipe
Desta vez entrevistei Maquiavel. Nicoló Machiavelli. Mora em Monteriggioni, arredores de Siena, em uma casa de pedra. Liguei, ele próprio atendeu, é pessoa finíssima, cavalheiro suave sem descurar da ironia, administrada com doçura. Não é possível? Ele consegue. Queria a opinião do autor do Príncipe sobre o livro de um senhor que se diz sociólogo, Alberto Carlos Almeida, intitulado A Cabeça do Brasileiro, citado largamente pela mídia nativa e apreciado pelos privilegiados. Segundo a obra, que resulta de uma pesquisa, a elite brasileira é o farol da modernidade enquanto a plebe rude e ignara é o lado negro do País. Sei, sei, disse Maquiavel, não se fala em outra coisa em Florença. Não escondi certa surpresa. É isso mesmo, insistiu meu entrevistado, porque cria um contraste muito interessante em relação ao Príncipe e prova que o povo brasileiro entra neste enredo como um campo fértil, semeado à larga com a vocação do poder. Como assim? A se considerar os resultados da pesquisa, verifica-se, sem sombra de dúvida, que os cidadãos de baixa extração social, sobretudo negros e pardos, reúnem as qualidades do líder, do verdadeiro príncipe, conforme o descrevo em minha obra. E a elite? Não, a elite é, deste ponto de vista, um desastre. Muito insegura, cordata, amarrada a injunções éticas que o chefe não pode permitir-se. Repare como respondem à pergunta se alguém é eleito para um cargo público, deve usá-lo em benefício próprio? Quarenta por cento dos analfabetos respondem sim e somente 3% de nível superior. Mas o príncipe impõe e conserva seu poder sem perder vista o bem geral. Você não entendeu direito, o príncipe vale-se do poder para sujeitar o povo às suas vontades. Olha, a pesquisa deste senhor Almeida estarrece os sábios de todo o mundo, mostra que o Brasil é, ao seu modo, um país único, a terra prometida dos gênios da política. Desliguei, entre atônito e perplexo.
enviada por mino
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