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24/08/2007 19:32

Inveja de Adriá

Sempre cuido do meu almoço, e hoje optei pelo tradicional. Rigatoni à bolonhesa, a autêntica. Não se confundem com os rigatoni com ragú, de puríssima e digníssima extração napolitana. Rigatoni à bolonhesa leva cebola, salsão, cenoura, tomate, carne batida com a faca, alecrim, sálvia, vinho tinto, caldo de carne (knorr nunca, caldo de carne mesmo). Ponho também pimenta dedo-de-moça, em lugar de pimenta do reino. É trabalho, estimulante do apetite, de uma hora. O ragú napolitano, na sua acepção mais simples, demora seis. Horas. Um naco de músculo de boi, um rosário de costeletas de leitãozinho, amarre as carnes e ponha na panela com uma montanha de cebola. Muita, muita cebola, que tem a qualidade inefável de derreter por conta própria, lenta e inexoravelmente. De fato, forma-se um creme de cebola, ao qual acrescento, de meia em meia hora, uma colher de sopa de extrato de tomate. Um amigo meu, napolitano, lança outros temperos, sálvia e alecrim aqui também, dentes de alho, salsão. A essência, porém, é a que indiquei. Disse e repito: seis horas de dedicação. Prepare na véspera. De todo modo, ao concluir o bolonhesa hodierno, tive inveja das glórias colhidas por Ferran Adriá, o melhor do mundo, segundo se assevera, e então o transformei em uma espécie de suspiro ou suflê ectoplasmático, sem exclusão dos rigatoni. Agi com diligência, com esforço técnico e mental totais. Ao cabo, aproveitei-me da proximidade da lata de lixo, almocei um sanduíche de salame.
enviada por mino






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