12/07/2007 21:33
Falta energia, falta coragem
Pequenos avanços, grandes recuos. Foi a tática de Fábio, o Contemporizador, contra Aníbal, o Cartaginês. Deu em nada, Aníbal chegou às portas de Roma e só não atacou, e arrasou a caput mundi, por causa de uma crise de preguiça. Quem derrotou definitivamente o cartaginês foi Cipião, o Africano. Atravessou o mar e foi dar batalha a Aníbal em seu próprio território, em Zama, África do Norte. Dizimou-lhe o exército e o pôs em fuga, da qual nunca mais voltou. Os romanos destruíram Cartago e jogaram sal sobre as ruínas.
O governo do presidente Lula, Mediador Recomendável, evoca remotas aulas de história, pois a tática assemelha-se à do Contemporizador. Quanto ao oponente, a minoria branca e sua elite, nata da nata, não se parece com Aníbal em termos de estratégia bélica, que nem é preciso tanto, mas é infinitamente pior.
Desde seus tempos de sindicalista, Lula, o Metalúrgico, sempre soube ser negociador excelente, e é natural que ele tenha transferido esta qualidade para o terreno de sua atuação como político. A Carta aos Brasileiros, que funcionou como plataforma ideológica de Lula às vésperas da eleição de 2002, já exibia seu talento diplomático. Com pleno êxito junto à nata da nata. Em abril de 2003, o doutor Olavo Setúbal dizia-se encantado com a atuação do ex-metalúrgico.
CartaCapital foi crítica do governo em várias ocasiões e por diversos motivos, em primeiro lugar em função da sua política econômica e cambial, e continua a sê-lo. No entanto, em virtude da capacidade de Lula de conciliar posições opostas, apoiou abertamente a sua candidatura na eleição e na reeleição, por enxergar nele o mediador necessário entre minoria e maioria, exígua aquele, desbordante esta.
Entendíamos, também, que o segundo mandato, conquistado contra uma feroz campanha midiática, permitiria a Lula avançar mais e recuar menos. Neste exato instante, verifica-se que Fábio, o Contemporizador, é fonte inesgotável de inspiração, embora involuntária. Leia-se nesta edição a reportagem sobre a rendição do governo no caso da norma sobre a classificação indicativa na televisão e, no terreno incerto dos transgênicos, a liberação do plantio do milho sem saber se o da soja traz benefícios ao País.
Pois esta é a questão central. O recuo, ou a omissão governista, beneficia os interesses da minoria, dos tradicionais donos do poder nativo e dos eternos colonizadores estrangeiros. Trata-se de assuntos que implicam o bem-estar físico e moral da população, e, portanto, relacionados com democracia e espírito republicano.
Enquanto isso, não falta munição à cavalaria cartaginesa, habilitada, inclusive, a recorrer aos elefantes. A mídia tripudia, no apoio estratégico, com a aparente colaboração de delegados da própria PF. Por exemplo. Tome-se o singular enredo do célebre envelope pardo que uma funcionária da Gautama teria entregue, com seu conteúdo de 100 mil reais, no próprio Ministério de Minas e Energia, a graduado assessor do então ministro Rondeau.
Saiu a respeito, na última edição de CartaCapital, o laudo do doutor Molina, perito da Unicamp, a respeito das imagens mostradas no Fantástico de 20 de maio. O doutor Molina constata o óbvio: ali não há envelope pardo. A Folha de S.Paulo informava, porém, na sua edição de segunda 9 que a PF sabe da presença da grana na bolsa da funcionária da Gautama. Quem da PF? Um porta-voz oficial? Tais perguntas também valeriam em relação ao Fantástico, que se dizia abastecido pelos federais.
A situação é grave. Que polícia seria esta, a serviço da mídia? A Assessoria de Comunicação da PF de São Paulo, procurada por CartaCapital, informou não ter prestado qualquer informação oficial à Folha, tanto menos para respaldar a afirmação de que a propina estava na bolsa. E mais: que em momento algum o inquérito entregue à Justiça faz referência a um envelope pardo.
As coisas não vão bem, se mídia e PF desmentem-se reciprocamente. Corro o risco, contudo, de cair em desgraça junto a Cassandra, por achar que sou otimista. Anoto, como PS, que o presidente do Senado, Renan Calheiros, já não exerce, de fato, seu papel. Resiste, porém, e ameaça os colegas de prestar-se à tarefa de ser guia de todos a caminho do Inferno.
Impávidos, assistimos ao espetáculo como se fosse corriqueiro. E é, também por obra e desgraça geral. Recordo os anos de ditadura, sonhávamos com o nascimento da sociedade civil. Parto adiado. Falta energia, falta indignação para que o evento se dê. Falta coragem.
enviada por mino
Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)