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12/07/2007 13:26

"Esforço vão"

Descobri o telefone de Martinho Lutero. Fácil, está na lista de Wittenberg. Liguei, ele atendeu, falamos. Foi uma entrevista que aqui divulgo, com absoluta exclusividade. Depois da troca de palavras convencionais, pergunta e resposta.

EU – Que acha do documento da Congregação do Vaticano para a Doutrina da Fé, divulgado anteontem, onde se diz que Cristo “constituiu sobre a Terra uma única Igreja”, ou seja, a Católica Apostólica Romana?
LUTERO – Bem, que esperar deste meu contemporâneo? O primeiro, transparente objetivo é acabar com a mais pálida chance de ecumenismo. E isso tudo de uma penada só, por causa da interpretação de um verbo em latim.

EU – Como assim?
LUTERO – O Concílio Vaticano II, faz mais de quarenta anos, afirmou que a Igreja de Cristo “subsistit in”, subsiste naquela governada pelo sucessor de Pedro. O verbo parece não excluir que outras igrejas tenham sido abençoadas da mesma maneira. Agora a congregação vaticana quer eliminar “quaisquer dúvidas a respeito” para esclarecer que o Concílio Vaticano II, tido à época, 1963, como um avanço, de verdade não mudou coisa alguma. Em lugar de “subsistit” leia “est”.

EU – Mas o senhor...
LUTERO – (interrompe) Nada de cerimônias, por favor, trate-me de você.

EU – (lisonjeado) Muito obrigado, é uma honra. Mas você sente-se ofendido pelo documento?
LUTERO – Já ganhei a minha parada, sem que isso me tenha levado a comemorações enforicas. Queria afirmar um principio, e consegui. De uma igreja que logo ao ser reconhecida como portadora da religião do Estado se tornou um avassalador poder temporal nada espero.

EU – A sua denúncia dizia respeito, entre outras coisas, à mercantilização das indulgências.
LUTERO – Era um dos aspectos das minhas 95 teses, mas havia uma questão de fundo, que as resumia. O afastamento total da igreja das lições de Cristo. Por isso fui excomungado.

EU – E como reagiu, in illo tempore?
LUTERO – Com a consciência de que a minha excomunhão era sinal de fraqueza e de medo. É o que penso hoje em relação ao documento da Congregação. Ratzinger sabe que a civilização cristã está em xeque. Ele reage autoritariamente, é tudo que sabe fazer. Obviamente, não é por aí...

EU – O monarca pretende virar ditador?
LUTERO – Esforço vão, creio eu. Inclusive na tentativa de retorno a uma igreja medieval, aferrada ao ritual. O qual, nos dias de hoje, está a ficar cada vez mais anacrônico, de uma teatralidade grotesca.

EU – De todo modo, as indulgências não são mais vendidas.
LUTERO – Ah, meu caro, eles vendem outras coisas, quem sabe até mais valiosas.

EU – Não é, porém, que o mundo esteja a ficar cada vez mais inteligente, e menos ainda igual?
LUTERO – Sim, há razões para ficarmos mais decepcionados, e preocupados. Os cristãos, por exemplo, não se interessam em saber o que Cristo pretende de cada um. Nem por isso Ratzinger acerta no alvo. A ignorância de hoje não é mais aquela que gostaria de encontrar. Ele é incapaz de perceber que Cristo enxotou os mercadores do templo e jantou com os pecadores.
enviada por mino






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