Mino Carta - dirigiu as equipes criadoras do Jornal da Tarde e das revistas Quatro Rodas, Veja, Istoé e CartaCapital, da qual é diretor de redação.


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05/07/2007 17:23

A verdade de seu Enoque

Converso com meu amigo motorista de praça, seu Enoque. Há quinze anos trafego com ele com alguma freqüência. “A seleção está jogando muito mal”, decreta, ao se referir ao jogo de ontem, contra o modestíssimo Equador. “Além de tudo, ganhou por causa de um pênalti duvidoso e bisonhamente batido, o goleiro quase pegou”. Decepcionado? “Não, já me acostumei, a seleção está mal há muito tempo, disputou um mundial abaixo de medíocre na Alemanha”. Mas no time há buracos importantes, observo, faltam os craques de férias. “Não serviram para nada, na Alemanha, Ronaldinho, Kaká jogaram pedrinhas. Nem se fale de Ronaldo, Cafu e Roberto Carlos, estes, aliás, é bom que se aposentem”. Passamos a falar de metereologia. Seu Enoque é, porém, representativo, e muito. A conversa dele ficou comum na boca dos torcedores, e o fato me parece corresponder ao fracasso da mídia nativa. A mesma que apoiou o golpe e conseguiu convencer os privilegiados do Brasil a saírem às ruas nas famosas marchas da Família, com Deus e pela Liberdade. Ah, sim, a liberdade, aquela que nos foi tirada vinte e um anos a fio. E apoiaram o golpe dentro do golpe, e silenciaram diante dos assassínios e da tortura cometidos nas masmorras do regime, e foram contra a campanha das Diretas-Já, e sustentaram o engodo Collor, e fizeram genuflexões diárias aos pés de FHC. Acostumados a ter êxito, sofreram o primeiro revés em 2002 com a vitória de Lula, e o segundo, ainda mais acachapante, com a reeleição no ano passado. A mídia parece não ter-se dado conta de que já não acerta o alvo, e aos meus pacientes botões pergunto se o próprio Lula teria captado a moral da história. Olham para o outro lado e saem assobiando baixinho. Em relação ao futebol, acho que o tempo de Galvão Bueno está em ocaso de partida, como diria Fiore Gigliotti. Aquela patriotada que já levou a maioria dos brasileiros a entenderem as eventuais derrotas da seleção canarinho como prova de um dia de mau humor do próprio Deus, não funciona mais. Aquela gritaria de parque jurássico, não toca, não comove, não empolga. O torcedor brasileiro começa a encarar o futebol como ele é. Bom sinal, a meu ver, excelente, indicativo de outras mudanças em gramados mais decisivos.
enviada por mino






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