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01/06/2007 19:14

Crime e castigo

Ontem à noite o programa Annozero da Rai, a tevê estatal italiana, foi ao ar, ancorado por Michele Santoro, o jornalista que viveu o ostracismo durante o governo Berlusconi. Escrevi ontem que gostaria de ver o programa. A partir da exibição de um documentário sobre os padres pedófilos, realizado pelo jornalista irlandês Colm O’Gorman para a BBC, estava previsto um debate. O anúncio da exibição remonta à semana passada e logo provocou ardentes polêmicas entre os representantes do governo e os da oposição que integram o Conselho de Administração da emissora. Os opositores perderam depois de emitir um comunicado que aos ouvidos de muitos soa como tentativa de censura prévia. O debate que se seguiria à apresentação do filmado, envolveria o reitor da Universidade Pontifícia Lateranense, outro sacerdote empenhado na luta contra a pedofilia pela internet, um escritor agnóstico e o próprio autor do vídeo. Eu imaginava um confronto tenso, excitado. Não imaginava, porém, que acabaria por assisti-lo. Depois da meia-noite, Annozero foi ao ar pela Rai International, e foi um largo momento de horror, politicamente importante. O horror está no documentário que relata casos registrados na Irlanda, nos Estados Unidos e no Brasil. Uma das seqüências mais hediondas põe no vídeo o ex-padre irlandês Olive O’Grady, que viveu nos Estados Unidos e é capaz de contar com absoluta tranqüilidade como seduziu trinta crianças ao longo de vinte anos. Sem furtar-se a informações alentadas a respeito das suas preferências. A violência, em geral, não tem limites e se conclui com a imposição do silêncio. Não são escondidos os nomes dos criminosos, bem como dos bispos que permaneceram em silêncio. O debate convocou também várias vítimas italianas, hoje já adultas. Algumas mostraram o rosto, outras não. Falou-se bastante dos envolvimentos na questão do papa, quando era ainda cardeal, na determinação de manter a situação sob sigilo, por intermédio, inclusive, de um documento que decreta, como sede do julgamento dos réus, única e exclusivamente o tribunal da Sagrada Congregação pela Doutrina da Fé. Apesar do esforço ratzingueriano, inúmeros sacerdotes foram julgados pela Justiça nos Estados Unidos, quando não ocorreu que as dioceses pagassem ressarcimentos às vítimas antes do recurso ao tribunal laico. Mas se apurou que, por exemplo, na Itália muitos sacerdotes criminosos vivem escondidos por obra e graça (divina?) da própria Santa Romana Igreja. Monsenhor Fisichella, o reitor, foi freqüentemente, e asperamente, desmentido por O’Gorman, e quase sempre não achou respostas convincentes. A não ser ao se referir a seu próprio pesar. O programa exibiu, sem chance de equívocos, o acobertamento praticado pelo Vaticano, a omissão, o reles espírito corporativo, a prepotência.
enviada por mino






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