08/06/2007 18:20
À luz balonçante de uma lareira
Há quem me pergunte como foi, nos detalhes, minha saída da direção de redação da revista Veja, em fevereiro de 1976. É enredo vetusto, contei muitas vezes, e desta me eximo. Aquele fevereiro, aliás, é a data oficial, 17 de fevereiro. De fato, saira nos últimos dias de dezembro de 1975. O número 17, na superstição de puríssima marca italiana, não dá sorte. A julgar pela minha vida, não é assim, muito pelo contrário. A partir daí, tive de inventar meus empregos, a bem da minha saúde e dos meus caros, e vivi a melhor temporada da minha existência profissional. Permito-me evocar, apenas, meu encontro, previamente marcado, com o então ministro da Justiça (Justiça?) Armando Falcão, no seu gabinete ministerial em Brasília. Muito palácio para pouco ministro. Ele disse, de braços abertos: Mino, que prazer recebê-lo, mas não gostaria de vê-lo acabrunhado, deixe disso, vá passar uma temporada na minha fazenda de Quixeramobim, esticam-se ali redes entre as arvores e você toma à sombra a água mais fresca do mundo. Respondi que a perspectiva me agradava, preferia, no entanto, deixá-la para outra ocasião. E perguntei então o que o levara a pedira a minha cabeça aos senhores da Abril. Ele esclareceu: Você há de entender, Mino, aqui vinham os diretores, Victor e Robert Civita, o responsável, Edgard de Silvio Faria, o diretor da sucursal de Brasília, Pompeu de Souza, e todos afirmavam que você era responsável pela linha da Veja, publicação inimiga jurada do regime. E daí, em tom patético: Que haveria de fazer? Haveria alternativa para o pedido de exoneração?. Comentei lacônico: Certo, certíssimo. Ganhei a oportunidade de contar um enredo interessante aos netos. Gostaria que fosse à luz balonçante de uma lareira. Não pode ser. No trópico não cabem lareiras.
enviada por mino
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