22/05/2007 19:08
A interferência do Vaticano
A Igreja Católica não se contenta em ter impedido a unificação da Itália e a transformação do país em Estado nacional, como se deu com França, Inglaterra, Espanha, Portugal etc. etc., há oitocentos e mais anos. Por causa da Igreja, em grande parte, a Itália é nação recente e Roma é sua capital há 150 anos. A rigor, a unificação somente se completou na guerra de 14/18, a primeira mundial. A interferência do Vaticano nos negócios do Estado italiano volta a assumir, nos últimos tempos, feições muito parecidas com aquelas dos primeiros anos do pós-guerra, a segunda mundial, quando os párocos pregavam dos púlpitos a favor do Partido Democrata Cristão. O governo atual, liderado por Romano Prodi, tenta uma reforma política, econômica e social que passa, por exemplo, pela aprovação do reconhecimento dos chamados casais de fato. Com a benção papal, a oposição organizou, faz pouco mais de uma semana um Family Day (em inglês, que Dante os perdoe) para enaltecer a importância da família baseada no matrimonio único e indissolúvel. Oitocentas mil pessoas participaram da manifestação, entre elas, está claro, o divorciadíssimo Silvio Berlusconi. Enquanto Bento XVI promete excomunhões, o ex-premier e cidadão mais rico da Itália aproveitou a oportunidade para afirmar diante das câmaras da tevê que católicos não podem ser de esquerda. Ontem o cardeal Bagnasco, presidente da CNBB de lá, convidou os políticos a levar em conta o Family Day. Ele também falou em inglês, com aquele sotaque de Rossano Brazzi, a paquerar Katherine Hepburn em Summertime, o filme de David Lean. Mas com a expressão de Buster Keaton proclamou que a Igreja não pretende atingir a lacaidade do Estado. Imaginemos que aconteceria se pretendesse. Em um país que aprovou o divórcio há mais de três décadas, a atitude eclesiástica, antes que anacrônica, é ofensiva e insuportável. No entanto, os políticos governistas mantêm a respeito uma atitude de imensa cautela. Reações indignadas partem de alguns jornalistas, como o veteraníssimo Enzo Biagi e um astro da entrevista televisiva, Michele Santoro, ambos afastados da Rai por decisão de Berlusconi durante seus cinco anos de mandato. Santoro anuncia o propósito de por no ar um documentário da BBC sobre os padres pedófilos. Confesso que a idéia não me desagrada, e com isso reforço minha candidatura à excomunhão.
enviada por mino
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