22/11/2006 20:13
Um revolucionário, não um subversivo
Bento XVI vai publicar um livro sobre Jesus pela editora Rizzoli. Trata-se, esclarece, de visão pessoal do teólogo Ratzinger. Não é encíclica, manifestação oficial da Igreja, donde o texto abre-se à crítica e ao debate. Quem sou eu para entrar nesta? Só poderia alegar que fui aluno das Marcelinas, tempos do primário, porque as piedosas freiras, das quais guardo excelente recordação, eram antifascistas e não tangiam os alunos para a praça mais espaçosa da cidade, nas manhãs de sábado, para exibições ginásticas e coros patrióticos. Meu pai não era religioso, escolheu as Marcelinas por razões políticas. Notáveis freiras, de pequenas cabeças envoltas por toucas cartilaginosas, mantinham aulas mistas e enfrentavam o risco, já em plena guerra, de matricular crianças judias, liberadas, para minha inveja, das aulas de catecismo. Iam brincar no jardim, sombreados por árvores de louro, de folhagem quase negra. A minha primeira paixão foi despertada por uma menina judia, Simonetta Avigdor, eu tinha oito anos. Poderia alegar também que, encaminhado a tanto por minha avó materna, tive empolgantes desempenhos na qualidade de coroinha. Receitava o meu papel de latim e, ao carregar o missal de um lado a outro, descia os degraus do altar com leveza bailarina. Em uma aldeia piemontesa, mil habitantes no máximo, foragidos dos bombardeios que castigavam minha cidade, Gênova, completei dois anos de ginásio em um colégio de padres. A escolha da aldeia coubera a minha mãe, motivada, exatamente, pela presença ali do colégio. Onde tive de traduzir do latim os Evangelhos, sem exclusão do Apocalipse de São João. Depois tomei outros rumos. Sou ignorante em teologia quanto em tudo o mais. Um generalista de boa memória. Em relação a Cristo, sei que lhe falta o reconhecimento da história. A figura carece de melhores informações, digamos assim. A idéia de Jesus é, no entanto, tão forte que resiste até hoje, intacta e em grande parte insatisfeita. Cristo não é subversivo, é revolucionário no mais amplo sentido, e a idéia é a de igualdade, eminentemente política. Não duvido da crucificação, mas aposto que a vida foi obra dos romanos, sem descurar da possibilidade do apoio da elite dos hebreus. O homem era perigoso demais. Sua lição foi traída, é apenas isso que me permito dizer. Miseravelmente traída. Por quem se apresentou como seu representante na Terra. A Igreja é poder temporal, terreno, e entre os poderes terrenos é de longe o mais duradouro e resistente. Um império, com todos os aparatos do próprio, embora dispense a conquista territorial. Não precisa. Impávido, aquele que se declara vigário de Deus, escreverá sobre o Filho. Traído, inexoravelmente, por dois milênios.
enviada por mino
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