24/11/2006 20:00
Infatigável espectador
Jack Palance, Robert Altman, Philippe Noiret. A morte deles precipita a lembrança do meu passado de cinéfilo. Desde a adolescência, o cinema foi meu pão de cada dia, ou quase, na quantidade de infatigável espectador. Neste alvorecer de paixão, o Majestic era minha sala de espetáculos preferida, e ali consegui até arrastar mais de uma vez meu pai, cidadão de gostos apurados. Vimos juntos, por exemplo, uma ridícula versão da vida de Cole Porter, interpretado por Cary Grant, e O Homem de Oito Vidas, o filme mais divertido de Danny Kaye. Ocorre-me meditar em torno do tipo de ator, ou de atriz, que prefiro. Gosto mesmo do ator que baixa no papel com tocha e cordas, igual a espeleólogo. De imediato, cito Philippe Noiret, Marcello Mastroianni, Robert De Niro, William Holden, Gene Hackmann, Montgomery Clift. Ou Meryl Streep, Katherine Hepburn, Vanessa Redgrave. Esqueço muitos, está claro. Marlon Brando não, sei dele. Pertence à categoria dos monstros sagrados, sujeitam o papel a si próprios, de alguma forma são sempre os mesmos. Como Anna Magnani, por exemplo. De vez em quando introduzem mudanças na interpretação, e depois repetem-se anos e anos. De Brando aprecio, basicamente, três grandes, definitivos desempenhos: em Um Bonde Chamado Desejo, em On the Waterfont, em Queimada. Sim, confesso, não assisti Último Tango em Paris, naquele tempo Bertolucci tinha o poder de me irritar. Em matéria de diretores, declino a minha antiguidade, embora perceba o advento dos jovens, ou pouco mais que jovens, de grande talento. Mas sou mesmo dos velhos. Chaplin de Tempos Modernos, Jean Renoir, Marcel Carné, John Ford, Bergman, Kurosawa, Hitchcock. Muitos italianos: Vittorio De Sica, Monicelli, Scola, Dino Risi. Obrigado a selecionar um único filme antes de subir na arca de Noé, teria de escolher, em desespero, entre Tempos Modernos, Rastros de Ódio, de Ford, e Ladrões de Bicicleta, de De Sica.
enviada por mino
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